Já faz um tempo que eu vi você na rua

5 09 2011

“Vamos ter um bebê?”, perguntei. Lembro que ela deu uma risada, parecia não acreditar em mim. “Não”, disse, “tô falando sério. Eu nunca planejei ser pai, mas também não sou desses que grita aos quatro ventos que nunca ia ter filho, que dá muito trabalho. Talvez só não tivesse encontrado uma mulher com quem eu merecesse criar uma nova vida. Não sei se essa criança merece alguém como eu pra chamar de pai, mas ela te merece como mãe”. Ela começou a chorar, eu também. A gente sempre se deu muito bem no quarto, eu sabia como deixá-la arfando, e ela me deixava todo arrepiado: na pior das hipóteses ia ser gostoso tentar. Não se demorou muito e ela engravidou. Ficou tarada feito o diabo naqueles primeiros três meses, dizia que era natural (eu não reclamei, claro). Depois a barriga começou a tomar forma, aquela vida mostrava ao mundo que estava ali, inundada e um pouco desorientada. Claro que a mãe ficou toda encucada, dizia que estava horrível, “toda gorda e balofa”. Baita bobagem, sabe como é, né? Ela manteve aquela cinturinha, sabe-se lá como, mas manteve. Antes eu queria um menino, depois sabia que ia ser menina. E assim nasceu, numa sexta-feira muito gelada, a Larissa.

Ela dizia que nossa menina tinha muita coisa minha, mas eu não identificava nada, sou péssimo com essas coisas. Além do mais, minha Lari era linda, característica que obviamente não veio de mim. Aqueles primeiros anos de fralda suja, roupas listradinhas e rosas, brinquedos babados e olhos verdes passaram feito furacão. Quando menos percebi ela já estava saindo pra comprar seu primeiro sutiã com a mãe, toda orgulhosa e meio envergonhada. Eu gostava de abraçá-la, desde pequena. Não só pra protegê-la, mas talvez porque eu não tenha tido tantos abraços assim quando criança. Passava a mão no seu cabelo por tanto tempo que nós dois caíamos no sono – com a TV ligada, só pra mãe dela ficar emputecida. Então ela estava com vinte e dois anos, “meio cedo pra casar, minha filha”, eu dizia, mas era determinada e encasquetada feito a mãe e a vó. Era um bom rapaz que ela tinha escolhido, depois de ter se enroscado com um par de manés. Não digo isso por ser o pai protetor, pelo contrário; só não era e nem sou o pai tonto, só isso. Se conheceram na faculdade, devem ter fumado seus bons baseados antes de tentar esta maluquice de vida-a-dois. Já comigo, bem ou mal, o meu casamento ainda estava de pé. Passamos invernos tenebrosos e noites sufocantes, mas depois de certa idade as gentes não se reacostumam ao sono solitário na cama. No fiel da balança, o amor parecia menos cansado que as brigas, então tinha sido praticamente uma vitória técnica.

E daí logo menos eu tava de cama. Respirava com muita dificuldade, me doía por demais o peito. “Falei que você devia ter largado a porra do cigarro”, me dizia minha velha, enquanto chorava feito bebê. Na hora de morrer a gente simplesmente sabe que é o momento, não dá pra explicar muito bem. Antes de ir, olhei pro lado e vi minha musa dormindo meio contorcida no sofá, “deve de estar com as costas doloridas”, pensava eu enquanto Lari passava a mão no meu cabelo. Irônico, agora era a filha que ninava o pai.

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2 responses

5 09 2011
Natiii

Cantei essa música na minha formatura de 8ª série, no Guilhermão, sou ótima ou não?! NOT! hahahahaha!

5 09 2011
hqsubversiva

=)

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