O suspense policial é um dos grandes gêneros do cinema, daqueles que conseguem atrair verdadeiras multidões, consagrar heróis e vilões e, mais do que tudo isso, mostrar que um grande crime pode ser resolvido. Porém, David Fincher nos lembrou que, por inúmeras vezes, o caso de um grande assassino por ficar sem solução por anos a fio, e que no mundo real há uma tendência ao esquecimento de assassinos que não se manifestam. Em Zodíaco, de 2007, o diretor cria um dos grandes filmes policiais da última década, e o faz subvertendo as características clássicas do gênero, como grandes perseguições, tiroteios, e, principalmente, um desfecho onde tudo se resolve.

A trama é baseada em fatos acontecidos desde o final dos anos 60, passando por boa parte da primeira metade dos anos 70, e conta a história de um dos assassinos mais conhecidos da história dos Estados unidos: o assassino do Zodíaco. Fincher mostra como o surgimento de cartas detalhadas dos crimes até então cometidos/atribuídos ao Zodíaco afetaram a população de São Francisco, uma das áreas de atuação do criminoso. O diretor focaliza sua narrativa em alguns personagens que tiveram envolvimento direto nas investigações do Zodíaco, como os policiais David Toschi e Bill Armstrong [Mark Ruffalo e Anthony Edwards, respectivamente], o repórter policial Paul Avery [Robert Downey Jr., dando seu habitual show particular] e o cartunista Robert Graysmith [Jake Gyllenhaal] – escritor dos dois livros que serviram como principal base para o filme.
Um dos maiores méritos do filme consiste no verdadeiro objetivo de Fincher: o diretor não deseja descobrir quem é o Zodíaco, mas mostrar como suas peculiaridades e crimes afetaram a sociedade norte-americana à época. Com uma caracterização extremamente competente do período histórico mostrado no filme, David apresenta personagens que se tornam obcecados com os mistérios que envolviam o assassino. Assim, vemos na tela personagens que fazem de tudo para descobrir a identidade do assassino, abdicando de praticamente tudo em busca de um objetivo que não se realiza. O melhor exemplo é Graysmith, que coloca sua vida pessoal de lado em nome da solução do caso, mesmo sendo um mero cartunista do San Francisco Chronicle.
Além disso, Fincher consegue realizar um filme extremamente tenso, mostrando o mínimo possível do assassino, e brincando com as expectativas de seu espectador em diversas cenas de suspense – a sequência do porão é um dos melhores exemplos de como se deixar toda uma plateia em suspense. Com uma direção bem comportada, sem grandes ousadias – salvo poucas cenas, como o assassinato do taxista, ou a sequência das letras azuis na redação do SFC -, o filme se firma pela força de seus personagens.

Por sua relativa “subversão” do gênero policial/suspense, Zodíaco não foi um grande sucesso de bilheteria à época. Afinal, com mais de duas horas de filme sem necessariamente chegar a um veredito, o filme tende a confundir a grande audiência. Entretanto, se prestarmos atenção aos verdadeiros objetivos do longa, Zodíaco é um dos melhores filmes de Fincher. Com uma caracterização histórica impressionante, uma narrativa competente e boas atuações, além da tensão que se prolonga, o filme mostra que nem sempre um assassino precisa ser sobre-humano ou ultra-violento para amedrontar todos; basta que ele nunca se revele para destruir a vida de alguns.
“Zodíaco” – Muito Bom
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