Nascimento não é deus, mas é foda

8 11 2010

Antes de começar qualquer papo, aviso que os textos sobre os filmes voltarão com tudo nestas próximas semanas aqui no HQ Subversiva, porque eu (finalmente) acabei meu TCC [sobre quadrinhos do Joe Sacco; ainda falarei mais sobre ele aqui, ok?]!!!! Tendo isso em vista, devo afirmar que nunca fui fã fervoroso de Tropa de Elite. Lembro que demorei um tempão para vê-lo pela primeira vez, e achei apenas um bom filme de ação; achava que a discussão que José Padilha propôs na primeira parte da saga do Capitão Nascimento foi muito mal construída. Mas tudo bem, saem notícias que vai haver uma sequência, que Padilha vai melhorar as coisas… no fim das contas, vi o filme hoje, e ainda estou em êxtase. Padilha realiza em seu Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro uma severa crítica social sem dar nome aos bois – porque não precisa -, e um puta filme de ação. O diretor fez filme de gente grande, com certeza.

Na trama de Tropa 2, o foco não é mais o tráfico de drogas na cidade do RJ; quem está sob os holofotes agora são as mílicias que atuam nas favelas cariocas. O filme, que se passa mais de dez anos após a primeira parte, mostra um, agora coronel, Nascimento [o sempre excelente Wagner Moura] que domou o tráfico na capital fluminense, e fez seu BOPE se tornar uma força importante na sociedade carioca. Entretanto, o Sistema – com maiúscula, porque ele é um personagem de suma importância na trama -, corrupto desde sua concepção, encontra um meio de continuar lucrando a partir da desigualdade social (criada por ele mesmo). Assim, ascendem as milícias nos morros cariocas, personificadas pela trupe de Rocha [o desconhecido Sandro Rocha, numa atuação magistral], que se relacionam intimamente com a política corrupta. Então, Nascimento, que adentra o Sistema, percebe que está diante de um inimigo construído por ele mesmo.

O roteiro de Tropa 2, escrito por Padilha e Bráulio Mantovani, é daqueles que merecem olhares mais atentos. Sem escolher qualquer bandeira partidária, Padilha e Mantovani criam um panorama completo dos problemas sociais do RJ e, por consequência, do Brasil. Os roteiristas passam por todas as camadas da sociedade envolvidas nestes problemas estruturais: desde os policiais, políticos, jornalistas – formadores de opinião, melhor falando – e a população civil. Abandonando a questão das drogas – abordada com certo preconceito e simplicidade maniqueísta em Tropa 1 -, a crítica de Tropa 2 aborda com maestria problemas enfrentados por milhares de brasileiros diariamente – como a “taxinha” de proteção cobrada por milícias, interesses escusos e ambíguos de políticos e membros do sistema governamental, a esquerda-intelectualizada-distante-de-todos-os-problemas-sociais-e-que-gosta-de-discursar-com-o-dedo-em-riste, e por aí vai.

Padilha cria um filme que se adequa perfeitamente a todos os brasileiros. A ascensão da violência e a desmoralização do sistema governamental são experienciadas por nós diariamente, e Padilha dá um soco no estômago da hipocrisia brasileira com cenas memoráveis – como a longa tomada aérea sobre Brasília, por exemplo.

Sobre os quesitos do filme como obra, o diretor também acertou a mão em cheio. Ele faz um filme com ótimos personagens e atuações: só de cabeça, dá para enumerar Wagner Moura, Sandro Rocha, André Mattos, André Ramiro, Milhem Cortaz e Seu Jorge. Tropa 2 é um filme de ação extremamente competente, com ótimas cenas de ação – ora com câmeras irrequietas, ora com uma câmera bem calma e observadora – e diálogos marcantes. E claro, com os recursos que Padilha conseguiu, o filme é esteticamente muito bonito, pois a qualidade das filmagens é muito boa.

Há ainda muitos outros quesitos do filme que valem a discussão, como as semelhanças estruturais de Nascimento e Fraga (uma possível versão política do Capitão), os conflitos entre Nascimento e sua família e por aí vai. Para a eternidade, Tropa 2 é muito melhor que seu antecessor. Padilha e Moura trazem ao público uma crítica social pertinente a todos nós, brasileiros, travestida como um grande filme de ação. Com personagens marcantes, um roteiro muito bom e grandes atuações, Tropa 2 é cinema da melhor qualidade, coisa de gente grande mesmo.

Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro – Excelente

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