Sem culpados ou inocentes

12 12 2010

Uma das coisas mais difíceis de se perceber com sobriedade é que, no mundo real, não há heróis ou vilões. Todos temos nossos aspectos negativos e positivos, e muitas vezes nos encontramos em situações complexas, nas quais o erro pode ser o único caminho; seja por nossos objetivos, seja por avaliações distintas da mesma realidade – o que nos põe em rota de colisão com outras pessoas. E, após ver A Rede Social, de David Fincher, isso ficou ainda mais latente em minha mente. Muitos têm criticado o filme – que se reveste de uma armadura de “biografia de Mark Zuckerberg/ do Facebook” – por apresentar personagens aparentemente maniqueístas: Eduardo Saverin é a vítima, Zuckerberg é o babaca-inescrupuloso-que-fodeu-seu-único-e-melhor-amigo e Sean Parker é o diabinho. Talvez tal leitura seja até correta, em certo ponto, mas a discussão é muito maior, pois todos os envolvidos estão suscetíveis ao erro, ao vislumbre, à perdição.

A trama conta a trajetória do grandioso projeto do Facebook, originado em um condenável site chamado Facemash, que comparava quais eram as garotas mais “pegáveis” de Harvard. A partir daí, com 22 mil visitas em uma única madrugada, as ideias e pretensões de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg em ótima atuação) ascendem, independentemente dos objetivos daqueles que perpassam seu caminho: seu sócio Eduardo Saverin (Andrew Garfield, também muito bom), a tríade Winklevoss-Navendra e até Sean Parker (Justin Timberlake em seu papel favorito: o de babaca).

O que se vê desde o início do filme é muito claro: nesta sociedade impessoal, cada um trilha seu caminho a qualquer custo. O que muitos classificam como questões morais – como traições, jogos de sedução e interesse -, são, para Zuckerberg, meros detalhes. Para alavancar o sucesso de seu projeto, o criador da rede social mais poderosa do mundo não hesita, apenas age. Enquanto os objetivos de cada personagem são consonantes, tais práticas não são condenáveis – vide as propostas lançadas por Mark a Eduardo (comunicar que esta ou aquela medida foi tomada é, na verdade, desnecessário, pois o que deveria ter sido feito já o foi, sem aprovação ou discussão).

O filme de Fincher é extremamente eficiente em caracterizar uma sociedade que prima pela exclusividade – só adentra o Facebook quem preenche alguns requisitos, seja ser estudante de Harvard, seja ter sido convidado por alguém. Aliado ao seu jeito sombrio de montar a narrativa – que transita entre o presente (representado pelas duas ações nas quais Zuckerberg está envolvido) e flashbacks (todos os acontecimentos decisivos para a construção do Facebook) -, soma-se a trilha sonora de Trent Reznor, que casa de maneira eficiente com a história.: robótica e eletrônica, tal qual o pensamento dos envolvidos.

Entretanto, há de se ressaltar que o filme tem sim seus erros, tentando dar emoções a personagens cujo pensamento racional é o dominante. A sequência inicial e final corroboram com esta interpretação maniqueísta e sentimental da história. E, é claro, Zuckerberg provavelmente tem muito mais substância do que o ser atormentado, sem grandes vínculos sociais e babaca que vemos na tela, tal qual Eduardo Saverin não deve ser tão “vítima” como se pode observar. Mas, em uma camada mais profunda do filme, estas caracterizações não consistem no cerne da questão, pois o debate é mais amplo. Neste sentido, ponto para o Fincher, que conseguiu mostrar por meio de uma história impessoal e belas cenas – como a sequência dos remos e a primeira noite do Facemash – como a individualidade ganhou força em nossa sociedade, impulsionada por redes sociais, tecnologias e afins. Mas que, ainda, lá no fundo, o homem ainda é o lobo do homem.

"Você não é um babaca, mas se esforça para tentar ser um, não?"

A Rede Social – Muito Bom


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