… Imprima-se a lenda

20 12 2010

No começo dos anos 60 o western americano começara a perder sua força, e, mais do que isso, sua fé. A imagem do cowboy se transformava de modelo de conduta e bravura em um espelho de retrocessos de toda uma era. Mesmo com obras como Sete Homens e Um Destino, de 1960, a representação do homem do Velho Oeste começava a mudar pra sempre – antecedendo a revolução estético-ideológica vista em Por Um Punhado de Dólares, em 1964, pelas mãos do italiano Sergio Leone. Mesmo com algumas discussões, foi em 1962 que o cinema americano admitia a “queda” do seu grande mito, simbolicamente filmada por um dos maiores diretores do gênero western, e do cinema como um todo. Em O Homem que Matou o Facínora, de 1962, John Ford criou aquela que, para muitos, é um dos maiores legados do cinema sobre Velho Oeste, aceitando a derrocada daquele que fora durante mais de 20 anos o genuíno herói da América.

A trama conta a história do senador Ransom Stoddard [o sempre marcante James Stewart], que retorna ao lado de sua esposa Hallie [Vera Miles] à pequena cidade de Shinbone para o enterro do “desconhecido” Tom Doniphon [John Wayne, em uma de suas atuações mais inesquecíveis]. Os jornalistas do pequeno Shinbone Star cobrem sua chegada, e questionam o porquê da vinda de um homem tão importante da política nacional ao enterro de um ilustre desconhecido. A partir daí, Stoddard relembra sua primeira passagem por Shinbone, e as razões pelas quais Doniphon significava tanto a eles: o inesquecível episódio da morte de Liberty Valance [Lee Marvin].

Ford traz uma história que desmascara a derrocada do cowboy por meio de uma narrativa em flashback, que remonta o período final daquele Oeste sem lei tantas vezes visto no cinema. Neste sentido, Wayne e Stewart se encontram em lados opostos da questão: Stoddard representa o modernismo, o homem que não precisa de armas para impor a lei, enquanto Doniphon é o bruto, rústico, cujo mais fiel companheiro é, na verdade, seu revólver. Assim, John Ford constrói de maneira ímpar os dois personagens, os colocando em lados opostos graças ao amor da jovem Hallie, e graças ao que fazer com o fora-da-lei Liberty Valance e seu bando. Para Stewart, o destino dos criminosos deve ser a cadeia, enquanto Wayne defende que no Oeste cada homem defende sua própria lei.

Nestes dois personagens, dois dos mais icônicos do gênero, Ford personifica o questionamento sobre a glorificação do cowboy, tido como o desbravador da América. Amadurecido após mais de 20 anos fazendo filmes, o diretor indaga seu espectador sobre quão verdadeiros são os mitos que ele e outros muitos ajudaram a criar, questionando quem era o quê naquela terra sem lei. Por meio da lenda sobre a morte de Liberty Valance, Ford nos faz pensar sobre toda a validade do culto aos pistoleiros, vaqueiros, fazendeiros e outros personagens da época, e como podemos ter adorado meras representações que não condiziam com os fatos. “Quando a lenda se torna fato, imprima-se a lenda”, Ford decreta ao fim de sua trajetória.


O filme é uma obra-prima não apenas por este questionamento, mas por muitos outros pontos positivos. Podemos citar dentre eles a crítica implícita aos anseios inescrupulosos da imprensa, sua visão da educação como forma de escape daquela árdua realidade, ou a ineficiência política – sempre influenciada por fatores externos que corroboram com os desejos dos mais poderosos. Ford constrói por meio de belíssimas, como a imagem do cactus floreado por cima do caixão de Wayne (representando a beleza para aquele homem bruto, fruto de um ambiente hostil onde poucos sabem a aparência de uma rosa, e apenas um cactus consegue sobreviver), um filme inesquecível.

É interessante rememorar que, na época de seu lançamento, O Homem que Matou o Facínora não foi bem aceito pela crítica e pelo público; Ford foi taxado como um diretor em decadência, cujo trabalho começava a decair… ledo engano. John foi um dos primeiros a perceber quão vazia era esta glorificação do cowboy, um homem que não era tão grandioso, nem tampouco modelo de conduta. Ele mostrou com maestria que nem toda lenda é fato, e o Oeste não tem espaço para rosas.

“O Homem que Matou o Facínora” – Excelente

Anúncios

Acções

Information

One response

22 12 2010
Gabriel

revolução estético-ideológica pra sergio leone me parece fanatismo demais. não acredito q seja uma revolucao, qt mais estética ou ideológica, ele nao desmontou algo q existia – essa desmistificacao já tava presente, de uma maneira ou de outra, nos próprios filmes do ford (sangue de herois é de 48 e rastros de ódio é de 56) além de outros (rio bravo, claro, quer coisa mais patética do que um delegado barrigudo, um policial borrachón e um velhinho insolente?), isto pra nao citar anthony mann e seus jimmys stewarts viadinhos (o faroeste psicológico). o q o leone faz, me parece (to roubando inacio araujo, nao conta pra ngn), é transportar o oeste dos eua pra italia. nao há revolucao nisso. talvez subversao seria a palavra. é um desvio, uma paródia estilizada de um momento do cinema. portanto, podemos descartar a revolucao estetica, já q ele nao revolucionou, apenas combinou elementos q ja existiam (o close até dizer chega, o tempo psicologico, personagens de moral ambivalente). qt a ideologia, precisaria estudar mais sobre o assunto pra saber q ideologia é essa.
vi esse filme do ford faz uns 5 anos, mas me parece que a frase clássica do “imprima-se a lenda” não é citada, ou é? fiquei confuso agora e to com preguiça de achar o dvd, responde pro tio, fera.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: