Quando ainda sonhávamos

11 01 2011

Há filmes que representam com fidelidade o sentimento e o pensamento de toda uma geração. No século XX, provavelmente Sem Destino, de 1969, é o filme que representa todo o sentimento da juventude embebida na contracultura dos anos 60 e no pensamento hippie. O filme é fruto de uma luta de toda uma geração contra o esquema vigente – seja a busca pela liberdade simbolizada por Billy e Capitão América, seja a luta de Peter Fonda e Dennis Hopper contra o modus operandi engessado de Hollywood -, e também profetiza como os sonhos de toda uma geração se tornariam uma mera desilusão.

A trama de Sem Destino mostra dois motociclistas, Billy [Dennis Hopper] e Wyatt “Capitão América” [Peter Fonda], que, após revenderem uma grande quantidade de cocaína, cruzam os Estados Unidos para chegar na famosa festa de Mardi Gras, em Nova Orleans; no percurso, sempre utilizando muitas drogas, os dois passam por inúmeras experiências, entram em contato com muitos estranhos, como o advogado Geroge Hanson [Jack Nicholson], e descobrem como a sociedade restringe a liberdade de todos nós.

Sem Destino tem inúmeros méritos que, por muitas vezes, são superestimados. O diretor, Dennis Hopper, praticamente sepultou sua proeminente carreira com o impressionante sucesso que o filme conseguiu na época, por traduzir os anseios desta juventude que conheceu as drogas, o “paz e amor” e a busca pela liberdade; como o filme se tornou um fenômeno, Hopper acreditava que era, de fato, possível destronar os manda-chuvas de Hollywood com filmes autorais – mesmo que ininteligíveis. Além disso, a quantidade gigantesca de drogas consumidas durante a produção, filmagens e pós-produção afetou a narrativa do filme, por muitas vezes truncada e “alucinógena” demais.

É claro que Sem Destino mereceu o lugar que conquistou na história do cinema. O filme mostra, em sua maioria, estes dois personagens marginalizados em inúmeros episódios que simbolizam o pensamento conservador de toda uma sociedade, e como cada homem deve ter o direito de ser livre para fazer o que quiser – como pode ser observado na sequência em que Hanson [Nicholson] fuma maconha pela primeira vez, descobrindo que aquilo não era tão grave quanto prega toda a sociedade. Além disso, Sem Destino preconiza o fim do sonho hippie – quando Capitão América afirma “jogamos tudo fora”, por ex. -, que, na vida real, começaria com a retomada do controle pelos grandes estúdios com os blockbusters Tubarão e Star Wars e, posteriormente, o conservadorismo político dos anos 80 (Reagan-Thatcher).

Com uma trilha sonora inesquecível – e que combina perfeitamente com o que vemos na tela -, um roteiro que representava o grito de liberdade de toda uma geração e um sentimento de subversão quase que palpável, Sem Destino merece o rótulo de clássico. Mesmo que tenha se deixado contaminar pela loucura e pelos exageros que seus realizadores cometeram, o filme mostra uma América que tenta se libertar de seus valores conservadores e pré-concebidos – e que percebe que tudo tem seu custo. Por mais que tudo tenha se perdido, Sem Destino mostra que acreditamos em nossos sonhos, e pagamos caro por isso.

“Sem Destino” – Muito Bom


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