Uma oferta que ele não vai recusar

18 01 2011

Até os anos 70 o conceito de blockbuster não existia – não porque não existiam sucessos de bilheteria, mas por causa dos moldes atuais do que consiste um filme de sucesso, e como ele é fabricado. Entretanto, em uma época onde o cinema americano começava a se embeber na contracultura, surgiram, a partir de Bonnie e Clyde, em 1967, filmes magníficos que satisfaziam um público cada vez mais crítico e consciente. Numa época onde os diretores inexperientes e mais jovens começaram a governar Hollywood e destruir os antigos moldes de produção de um filme, Francis Ford Coppola era um dos mais talentosos. Depois de muitas negociações, idas e vindas, ele aceitou trabalhar em um audacioso projeto da Paramount, que se baseava no livro The Godfather, de Mario Puzo. Com um roteiro adaptado pelo próprio escritor, Coppola aceitou fazer O Poderoso Chefão, de 1972. Tomando um gênero pouco valorizado à época, o diretor realizou um dos filmes mais importantes da história do cinema e, com certeza, sua obra mais significativa.

A trama conta a trajetória dos Corleone, clã mafioso que controlava Little Italy em Nova York, durante os anos 40. Durante o filme vemos um pouco mais sobre as relações entre os mafiosos da cidade, das relações dos criminosos com os cidadãos comuns, e como nem sempre se pode escapar de suas origens. É óbvio que estou simplificando por demais a complexa e bem amarrada trama roteirizada por Puzo e Coppola, mas o importante é deixar claro que tudo gira em torno da máfia.

O Poderoso Chefão foi, até os lançamentos de Tubarão (1975) e Star Wars (1977), a maior bilheteria da história. Coppola obteve um estrondoso sucesso por realizar uma obra-prima em diversos quesitos. Primeiramente, o roteiro forneceu personagens carismáticos e fortes, como Don Vito [Marlon Brando, na performance mais icônica de sua carreira], Sonny [James Caan] e Michael [Al Pacino, magnífico], além de coadjuvantes como Tom Hagen [Robert Duvall], Kay [Diane Keaton] ou Fredo [John Cazale]. O elenco como um todo esbanja em suas atuações, que por si só já garantiriam a importância do filme: Brando deu singularidade a Vito (mesmo que com muito desleixo, pois o astro não lera o roteiro antes das filmagens, e decorava suas linhas por meio de anotações), e Al Pacino representou com maestria as mudanças radicais pelas quais seu personagem passa ao longo da obra.

Outro ponto importante da qualidade do filme reside no trabalho de Coppola na direção. Mesmo sob constante e pesada pressão dos executivos da Paramount à época – eles acreditavam que o filme era escuro demais, e que seria um fracasso -, o diretor segurou as pontas e nos trouxe um universo de relações e atos sombrios, que contaminam todo o submundo de Nova York. Além disso, o diretor proporciona inúmeras sequências antológicas, como a introdução (casamento da filha de Vito), a “persuasão” ao produtor de cinema, diversas sequências de assassinatos e, por fim, o clímax do batismo.

Entretanto, pra mim, o que é mais importante em O Poderoso Chefão é como Coppola consegue construir uma história com uma temática por muitas vezes positivista. A trajetória de Michael é fascinante: ao início, ele não quer relações com sua família; mesmo que com relutância, o jovem progressivamente abraça seu destino, suas origens criminosas e seu clã como forma de conhecimento próprio, e proteção daqueles com quem ele realmente se importa. Além disso, não se pode esquecer também do papel crucial que a trilha sonora de Ennio Morricone tem no filme: as melodias compostas pelo italiano foram imortalizadas, e combinam perfeitamente com toda a atmosfera que permeia todo o filme.

Ao fim, fica latente que O Poderoso Chefão é um dos marcos do cinema, e mereceu todo o sucesso que ainda possui. Com atuações poderosas, um roteiro incrível, trilha sonora marcante, sequências inesquecíveis e uma direção refinada de Coppola, o filme figura entre os melhores de todos os tempos. E se levarmos em conta a descrença que o estúdio nutria por Coppola e toda a produção, o fato se torna ainda mais impressionante.

“O Poderoso Chefão” – Excelente


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