Apocalypse Coppola

8 02 2011

Estamos em 1975. Francis Ford Coppola é, provavelmente, o diretor mais influente e poderoso em Hollywood: depois de três grandes filmes, e um desempenho fenomenal no Oscar – indicações a melhor filme por A Conversação e Poderoso Chefão: Parte 2 -, o diretor estava no auge. Entretanto, quando se atinge o clímax, o único caminho a se seguir é, com certeza, a queda. Há anos Francis tentava emplacar uma ideia sobre um filme do Vietnã, chamado “Apocalypse Now“, e ele desejava que George Lucas o dirigisse. Depois de algum tempo de persuasão, e a negativa de George, Coppola resolveu dirigir o filme, baseado em um roteiro de co-autoria de seu grande amigo John Milius. Dali, após quatro intensos, penosos e sofridos anos surgiria Apocalypse Now, em 1979. O filme seria sua maior epifania, e a sua maior decepção, por tudo que representou, e como o modificou para sempre.

A trama mostra a trajetória do capitão Benjamin Willard [Martin Sheen, em um dos melhores papéis de sua carreira], designado para uma missão especial: encontrar e eliminar o coronel dissidente Walter E. Kurtz [Marlon Brando], que se rebelou contra o exército americano, e impôs um pequeno império de destruição aos aliados vietcongues dos Estados Unidos em território do Camboja. Willard deve cruzar todo o território vietnamita para chegar aos domínios de Kurtz, e para tal é levado por um pequeno barco aliado; no percurso, no entanto, Willard começa a perceber que as coisas não são tão simples quanto aparentam, e quão importante é sua missão para o conjunto da obra.

Apocalypse Now é, com certeza, um dos filmes de guerra mais importantes sobre o conflito no Vietnã. A obra representa uma pesada e intensa crítica ao american way of fighting, mostrando os efeitos da guerra em milhares de jovens enviados ao front, e como o alto escalão não esteve presente nos momentos mais importantes e decisivos da batalha – e quando esteve, as consequências eram catastróficas. O roteiro, até a última meia hora de filme é um dos melhores dos anos 70, com certeza. Somos apresentados a personagens fascinantes e, simultaneamente, perturbadores, como tenente coronel Kilgore [Robert Duvall], que não hesita em realizar uma ofensiva a um pequeno povoado, executando mulheres, velhos e crianças, para poder surfar em águas melhores. A famosa frase “adoro o cheiro de napalm pela manhã” é simbólica, representando como aqueles que comandavam os soldados não desejavam apenas vencer, como gostavam do poderio em suas mãos – decidir entre quem morre, e quem vive.

A longa jornada que Willard tem que trilhar para chegar a Kurtz vitima dezenas de jovens soldados que cruzam seu caminho; entretanto, o coronel não se abala mais, está calejado e tem consciência de quão nociva é a guerra como um todo. Neste sentido, há inúmeras sequências que corroboram com isso, como a abordagem ao barco vietnamita, a batalha das pontes e a chegada ao acampamento de Kurtz. Mas a parte final do filme, onde finalmente surge a sombria figura do coronel Kurtz e do fotógrafo americano [Dennis Hopper] espelha o processo de destruição e dor pelo qual não apenas Willard teve que passar, como o próprio Coppola.

O diretor negligenciou todas opiniões contrárias, e Apocalypse Now foi uma grande ostentação desnecessária de poder. A produção, que deveria ser lançada originalmente em 1976, acabou chegando aos cinemas apenas em 1980, com mais de duzentas horas de filmagens, e mais de dois anos para ser editado – estourado em mais de US$20 milhões do orçamento original. Neste processo, Coppola teve que colocar tudo que tinha como garantia para finalizar seu filme – propriedades, dinheiro e a sanidade financeira da American Zoetrope, que saiu mortalmente ferida deste processo. Para se ter noção, um tufão atingiu um dos sets de filmagem – fato já previsto pelo diretor Roger Corman em conversa com Coppola -, o protagonista Martin Sheen sofreu um ataque cardíaco – tendo que ser substituído por seu irmão em algumas cenas -, e Marlon Brando chegou ao set 40kg mais gordo do que esperado, sem saber uma linha do roteiro. Francis passou pelo inferno para superar tudo isso, e se afundou nas drogas, relacionamento extraconjugais e egocentrismo para tal.

Em 1979, mesmo sem ter o corte final do filme, Coppola venceu a Palma de Ouro em Cannes e o prêmio de melhor diretor nos BAFTA Awards. A arrecadação do filme bancou os custos exorbitantes da produção, mas não consistiu num sucesso de bilheteria: o mito Francis Ford Coppola ruiu. Isso se reflete no filme, onde a sequência final é, por inúmeras vezes, ininteligível, assemelhando-se muito mais a uma viagem de ácido do que a um roteiro solidificado e coeso. Mesmo assim, a obra sobrevive ao tempo, mostrando aspectos comuns a qualquer guerra, como o processo de insanidade pelo qual os jovens são obrigados a passar; o sucesso não se refletiu nas bilheterias porque o público já estava embebido nos blockbusters de Spielberg e Lucas, e desejava filmes mais otimistas – como “Rocky, Um Lutador”, de Stallone.

A partir de Apocalypse Now, as perspectivas pioraram para Francis. Ele já não era mais aquele diretor que estourava orçamentos e prazos mas conseguia sucessos inquestionáveis. Sua American Zoetrope não tinha mais força para sustentar epifanias e investidas tão audaciosas quanto Apocalypse Now – não à toa, no início dos anos 80 a produtora faliu, e Coppola teve que retornar a filmes com apelo comercial para recuperar capital. Francis já não era mais aquele diretor que escrevia, produzia e dirigia: ele tinha que filmar o que podia para sobreviver. Sua megalomania chegava ao fim, vitimando o cineasta que víamos durante os anos 70; como diz o Capitão América em Easy Rider, “jogamos tudo fora”. Coppola, como grande parte dos talentos de sua geração, como Hal Ashby, Robert Towne, Dennis Hopper e outros, realmente havia jogado tudo fora. O sonho finalmente acabou.

“Apocalypse Now” – Excelente

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3 responses

9 02 2011
Gabriel

faltou dizer que é baseado na novela do conrad, o coração nas trevas, mais assustadora do que o filme. tem um ensaio legal do vargas llosa sobre o livro.

quanto ao filme…continua bastante cansativo. toda megalomania tem um preço, e a do coppola foi grande.
felizmente ele ainda está vivo pra fazer coisas como tetro.

e aquela cena das coelhinhas da playboy, que tristeza.

o prólogo é muito longo também. não sei, ele perdeu um pouco a noção das coisas. no fim, vale a pena assistir? o começo é chato, o final é jogado, resta o meio, com boas frases e algumas cenas interessantes. alguém edite aí no youtube as melhores partes.

no entanto, deve ser legal ser da família coppola, li uma entrevista outro dia em que ele dizia que eles se reúnem sempre pra ficar conversando sobre filmes enquanto bebem vinho e comem macarrão.

um fanfarrão, esse coppola.

9 02 2011
hqsubversiva

Há muito excesso no filme como um todo mesmo: seja pela sequencia final totalmente influenciado por muito ácido, sejam sets grandiosos demais, seja uma jornada longa demais. Mesmo com esses pesares eu acho o filme muito bom, porque ele representa mesmo a queda de toda uma juventude e, ao mesmo tempo, uma geração inteira de cineastas. Mas sobre o começo, eu discordo, não acho prolongado demais não…

9 02 2011
Gabriel

vamos colocar as coisas em outros termos.

vc veria um filme que se arrasta pra chegar até um final insatisfatório? a resposta é “sim, desde que…”.
no caso de apocalipse now, faltou arte, faltou engenho, faltou noção.
tá, tem frases legais (adoro cheiro de napalm), tem uma ou outra cena ok, mas justifica ver 3h de filme?
tudo bem uma primeira vez, mas duas é demais. o que o filme ganha numa revisão? ao contrário, acentuam-se os defeitos.

aí, quem está perdendo é o espectador…

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