Marcas da Violência

7 03 2011

David Cronenberg é um dos nomes mais polêmicos, controversos e geniais do cinema dos últimos 30 anos. Desde “Scanners“, em 1981, o diretor mistura altas doses de violência com personagens poderosos – como, por exemplo Nikolai em “Senhores do Crime” ou James Ballard em “Crash“. E é de sua autoria um dos filmes top 10 dos anos 2000 (na minha singela opinião, claro): Marcas da Violência, de 2005. O filme, que é uma adaptação da HQ homônima escrita por John Wagner, e desenhada por Vince Locke, conta uma brutal história sobre redenção, segundas chances e aparências.

O filme mostra como a vida da família Stall mudaria para sempre depois que o patriarca, Tom [Viggo Mortensen], impede um assalto em sua cafeteria de modo heróico. Tom mata os dois assaltantes, ganha notoriedade, e atrai atenção do bando mafioso de Carl Fogarty [Ed Harris] e, posteriormente, de Richie [William Hurt], que não acreditam que Tom Stall seja quem ele afirma ser. Enquanto a família passa a sofrer cada vez mais com a presença dos criminosos, Edie Stall [Maria Bello, maravilhosa] e seus filhos percebem que nem tudo é como parecia ser.

Tom Stall e sua família representam uma espécie de “american dream” atualizado: uma família feliz, onde os pais se amam e mantém sua rotina sexual ativa e saudável, as crianças são inteligentes e engraçadas, e são conhecidos e respeitados em sua pequena cidade no interior dos Estados Unidos (a fictícia Millbrook, em Indiana). Porém, as máscaras se desmontam gradualmente depois de Tom salvar seu estabelecimento de dois assaltantes, os matando de modo instintivo. A partir daí, o sangue, violência e a tensão dominam as relações desta família com o mundo: seja nas reações do filho contra os valentões do colégio, seja Tom contra aqueles que ameaçam sua família, seja Edie com seu marido.

É interessante notar que Cronenberg não é defensor da violência, mas faz questão de trazer algumas das equências mais sangrentas do cinema desta última década. A cada luta, a cada morte vemos uma dose cada vez mais cavalar de sangue, ossos quebrados, fraturas expostas e corpos deformados pela ação de pistolas, facas e até bules de café. Simultaneamente, vemos uma faceta sombria de Tom. Ao mesmo tempo que o esteriótipo da família perfeita desmorona, Tom se esconde cada vez mais em si mesmo, e seus segredos se transformam em um câncer maligno para suas relações.

David Cronenberg realiza cenas memoráveis para simbolizar a ruína desta família. Talvez a mais importante seja o sexo selvagem entre Mortensen e Bello na escadaria de sua casa. O que antes era prazer, hoje tem um sentimento de culpa, raiva e dor embutidos, representando fielmente o mundo ao qual estes personagens agora pertencem. E a cada novo embate vemos Viggo mais violento, mais sombrio e mais determinado a colocar um ponto final nos erros do passado. Porém, este passado cobra seu alto preço para desaparecer. Relembrando Tarantino em “Kill Bill vol.2“, quem nasce um assassino, assim o será, independentemente do que queira ser. Mais do que um pai de família devotado ou marido amável, Tom é um assassino, e dos bons.

Com atuações impressionantes e cenas simbólicas, Marcas da Violência é maravilhoso. Cronenberg não banaliza a violência na qual seus personagens se afogam cada vez mais, e mostra a faceta sombria de uma sociedade cujas aparências são enganosas. O final do filme fecha com chave de ouro esse conto de violência, onde vemos que toda ação tem sua reação, todo ato tem sua consequência; este é o sombrio mundo no qual vivemos.

“Marcas da Violência” – Excelente


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