A Última Tentação de Cristo

18 04 2011

Os anos 80 foram maldosos com as mentes criativas da Nova Hollywood. Um dos únicos que sofreu pouco durante a década foi Scorcese, pois conseguiu emplacar um sucesso ou outro. E no fim da década, Martin nos premia com uma de suas joias mais raras: A Última Tentação de Cristo, de 1988. Baseado no livro homônimo de Nikos Kazantzakis, Scorcese ousa em contar uma versão subversiva da história de Jesus Cristo, e realiza uma obra-prima.

A citação que antecede o filme já deixa claro que não veremos outra adaptação bíblica da ascensão e queda de Cristo. Não me recordo ao pé da letra, mas o trecho, retirado da obra original de Kazantzakis, ressalta que a riqueza da história do Filho de Deus reside na constante luta entre seu lado humano e seu lado sacro, santo. A tentação em uma eterna luta de braço com a santidade, o pecado e a redenção. Não à toa Scorcese chamou o homem perfeito para escrever este ousado roteiro: Paul Schrader, seu parceiro de longa data. Somente a mente insana de alguém com a complexa formação de Schrader (suas influências calvinistas de berço, toda a religiosidade que o tornou reprimido e praticamente psicótico) teria coragem de escrever uma história com Jesus Cristo medroso, e um Judas rock’n rolla, saído diretamente do Bronx.

A narrativa é muito bem planejada, sem aqueles sentimentalismos tão corriqueiros em filmes bíblicos. Claro, a obra é uma releitura ficcional, mas Scorcese e Schrader trazem um mundo corrompido pelo pecado e pela brutalidade, no qual Jesus Cristo não apenas o Messias; ele suja suas mãos: é ele o responsável pela construção das cruzes nas quais seus irmãos judeus são mortos. E não tem como não falar de Willem Defoe [Cristo], Harvey Keitel [Judas] e Barbara Hershey [Maria Madalena], com suas performances fora-de-série. Defoe transmite toda a dicotomia e a luta entre o lado humano e santo de Cristo, Keitel transpira raiva e paixão e Hershey simboliza a busca pelo amor e redenção de Madalena.

Não vou entregar spoiler algum, mas é simplesmente genial o arco final do filme. Scorcese e Schrader fecham com chave de ouro essa fábula sobre a dualidade existente em todos nós, sobre nossos desejos por redenção, sobre nossos pecados, sobre nosso sofrimento e regozijo. A Última Tentação de Cristo é um filme ousado e polêmico; talvez por isso não tenha caído no gosto popular, pois escancara hipocrisias e levanta hipóteses “ousadas demais” para uma sociedade retrógrada e conservadora. Mas o filme se atreve a colocar ídolos em xeque, representando alegorias de nós mesmos. É uma pena que seja uma das obras menos conhecidas e comentadas de Martin… merecia mais, muito mais.

“A Última Tentação de Cristo” – Excelente


Ações

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6 responses

19 04 2011
gabriel

esse é bom, ao contrário de diretores que resolvem refilmar freneticamente com astros decadentes. (a câmera pune, diz muriçoca)
o scorsese é tão genial que se resolvesse filmar uma gordinha em dieta pecando por comer chocolate – ah!, msm assim seria uma obra-prima cinematográfica.

19 04 2011
marcelo

Cara, eu me digo fã do Scorsese e nunca assisti esse aqui.
Po, valeu a dica, vou corrigir isso logo.

19 04 2011
hqsubversiva

Pois corrija o mais rápido possível, mai frend!

20 04 2011
Davi OP

“Os anos 80 foram maldosos com as mentes criativas da Nova Hollywood.”

Se formos além da crítica, que virou as costas a alguns dos “autores” que defendia, tenho que discordar. Tanto De Palma, como Friedkin e Coppola, por exemplo, fizeram dos seus melhores filmes na década de 80. Isto são apenas três exemplos de cineastas que brilharam na década de 70 continuando a brilhar nos anos 80.

Tenho que concordar que quem fez o único caminho em curva ascendente aos olhos de público e crítica, além de Spielberg, foi o Scorsese, que começou uma jornada com “A Cor do Dinheiro” que o levou aos seus três últimos filmes, todos blockbusters e marcas comerciais inéditas em sua carreira, até então.

Sobre “A Última Tentação…” penso bastante sobre o filme e achei interessante falar deste em específico como uma obra de ficção, já que toda a parte mais mística da vida de Cristo é mitologia e todas as obras acerca são ficção. Gosto da visão do Scorsese, mas fora aprofundar temas e jogar luz em coisas que obviamente são ignoradas pela facilidade que permitem sendo ignoradas, não acho que ela fuja tanto de uma visão mais comum dos textos sagrados. Isso sem achar que eu tenha um grande conhecimento, mas a chave do sucesso do Scorsese é que ele não é um homem de opiniões fortes em seus filmes. Existem diversas impressões, mas não são exatamente características dele em particular. Fico pensando em como seria o Cristo de Paul Verhoeven que ele tanto queria fazer. Estou curioso em ler o livro do Verhoeven sobre o assunto, até porque gostaria de ver como alguém que bate o pé com seus argumentos trabalha com o assunto.

22 04 2011
hqsubversiva

Não nego que os anos 80 foram ruins em termo de qualidade para a Nova Hollywood, digo que foram maldosos em relação a reconhecimento, a sucesso, tudo isso. Claro os tempos eram outros, tem toda aquela coisa da década perdida e tal.

Pensei bem no que tu disse sobre o Scorcese não ter opiniões fortes e acho que concordo. De fato, o filme subverte um pouco toda a mítica de Cristo, mas em nenhum ponto sacramenta o que quer dizer. É o que conversamos a alguns dias atrás: o filme é muito Scorcese e Schrader. Scorcese com a tentação, Schrader com toda a subversão nos atos de Judas, por exemplo.

Agora, o filme de Cristo do Verhoeven seria algo interessante de ver…

23 04 2011
Yasmim-Deschain

Filme incrível! Merecia um reconhecimento muito maior!

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