Faccia a Faccia

8 05 2011

Sergio Sollima era um gênio. Em três anos consecutivos, o italiano – que formou a trinca de ouro dos “Sergio’s” junto com Leone e Corbucci – realizou três das obras mais importantes do western spaghetti: O Dia da Desforra, em 1966; Quando os Brutos se Defrontam (Faccia a Faccia), de 1967 e Corri Uomo Corri, de 1968. Já falamos sobre La Resa Dei Conti por aqui, e é hora de falar sobre Faccia a Faccia, outra obra-prima de Sollima. Novamente com crítica social afiada, atuações soberbas e sequências antológicas, o filme é um clássico instantâneo.

Faccia a Faccia trabalha com temas universais: a compaixão, a justiça, a ira, o poder e a revolução. Sollima transita por esses complexos temas ao narrar a trajetória do professor Brad Fletcher [Gian Maria Volonté, num dos melhores papéis do gênero], que leciona no Norte abolicionista no pré-Guerra Civil americana. Enfermo, ele precisa ir ao Texas para descansar e tentar melhorar. Lá, acaba ajudando um o famoso ladrão Beauregard Bennet [Tomas Millian] a escapar e, fascinado pelas diferenças (“Beau” é um homem moldado pela dureza do Oeste americano), se junta a seu bando criminoso. A partir daí, Brad passa por uma completa transformação: o pacifista professor doente e debilitado se transforma em um revolucionário e violento ladrão. Neste processo, ainda se insere o agente infiltrado da Pinkerton Charley Siringo [William Berger], que tem que sabotar o bando dos “Brancos Selvagens” e descobrir onde fica a “Pedra de Fogo”, espécie de comunidade à parte da sociedade, protegida por Millian e seu bando.

É genial a transformação não apenas de Volonté, mas de Millian, que é um matador sem remorsos no início da película, e absorve parcela da sensibilidade, compaixão e razão de Fletcher ao início do filme. Sollima nos brinda com um filme que aborda a vasta gama de personalidades que uma mesma pessoa pode assumir, em dependência de diferentes casos. Fletcher é um homem pacífico no Norte abolicionista, onde as leis imperam; no Velho Oeste, onde cada homem faz sua própria lei, o personagem libera uma espécie de “monstro contido”.

Além disso, ainda há a crítica social, de poderosos que pagam um agente infiltrado para descobrir onde se encontra a Pedra de Fogo (um híbrido de favela e Canudos) e, ainda pior, pagam para um bando de mercenários massacrarem o vilarejo – US$100 por homem, US$50 por mulher e US$25 por velho ou criança mortos. A descrição do que é a Pedra de Fogo se encaixa em qualquer comunidade que não se encaixa no “sistema”, e é simplesmente perfeita:

“Toda ‘Pedra de Fogo’ é uma cidade de fantasmas:
Caçadores sem búfalos
Caubóis sem cavalos
Mineiros sem ouro
A ralé da velha e romântica fronteira que se recusa a aceitar a existência de trens, telégrafo, da realidade, em resumo.”

Faccia a Faccia é uma obra-prima, com certeza. Repleto de crítica social, ótimos personagens e um roteiro do caralho – não nos esquecendo, é claro, da trilha sonora magistral da dupla Ennio Morricone-Bruno Nicolai -, Sergio Sollima mantém o nível de O Dia da Desforra, seu filme anterior. Uma aula de cinema, um dos melhores western spaghetti da história.

“Quando os Brutos se Defrontam” – Excelente

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2 responses

9 05 2011
caiolefou

Esse também acho obra-primíssima! E melhor que O Dia da Desforra… Foi dos filmes que mais me surpeenderam nos últimos tempos.

9 05 2011
hqsubversiva

A sequência final no deserto é simplesmente magistral, não consigo saber quem está melhor: Volonté, Berger ou Millian.

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