Videodrome

29 05 2011

A associação entre as ideias de Mcluhan e Videodrome, de 1983, do gênio David Cronenberg (canadense como Marshall), é inevitável. À época, pré-internet, McLuhan acreditava que a TV se desenvolveria de tal modo que a utilizaríamos como a nossa internet atual, num mundo extremamente interligado sócio-econômico-politicamente. Cronenberg se apossa desta visão numa espécie de fantasia mcluhanianaorwelliana (rememorando o conceito da tela do Grande Irmão de 1984) repleta de violência, sexo e sadismo, num futuro sombrio extremamente interessante. Claro, só poderia sair uma obra-prima deste samba do crioulo doido.

Max Renn [James Woods ainda bem novinho] é o proprietário de um canal pornográfico numa sociedade corrompida pela televisão. Neste mundo visionado por Cronenberg (também roteirista do longa), a televisão se tornou um vício como outro qualquer, inclusive com instituições que “abrigam” viciados em TV e lhes fornece poucas horas de qualquer porcaria televisionada. Então, em uma de suas viagens pirateadas por programas de outras partes do mundo, Renn descobre algo extremamente sádico, violento, sem conteúdo e politicamente incorreto: Videodrome. Este programa mostra mulheres sendo açoitadas, torturadas e mortas em um cenário hipnotizantemente vermelho; não se sabe se tudo é uma grande farsa, ou se é pra valer. Mesmo relutante, Max não consegue tirar seus olhos do programa, que o agarra como se fosse um ímã de humanos. Apesar de toda a repulsa e asco causadas pelo conteúdo abusivo, Videodrome o fisga.

A partir disso, toda a percepção que Renn possui da realidade começa a se distorcer lentamente. Daí pra frente vemos uma mistura de política, insanidade e violência exacerbada apresentada de, certa forma, um modo também hipnotizante. É inegável que todo o jogo de contrastes e efeitos especiais maravilhosos que Cronenberg realiza também fisga seu espectador, que partilha o asco e insanidade de Renn ao assistir à Videodrome. A cada TV que pulsa ou estômago que abre, nós nos contorcemos aqui no mundo real, e ficamos mais e mais sedentos até descobrir o final dessa grande epifania sombria.

O roteiro e atuações do filme já o sustentam. Mas, como bem sabemos, a marca registrada de Cronenberg, ao utilizar a violência extremada por meio de efeitos especiais e de maquiagem dá um tom ainda mais ousado ao filme. A equipe de special make-up effects encabeçada por Rick Baker (“Star Wars Episódio IV”, entre outros clássicos) cria cenas e situações extremamente repulsivas – como a morte no palco, as fitas na barriga e a mão-revólver – sem CGI’s, o que deixam tudo ainda mais vistoso.

O que mais me atrai em Videodrome é, provavelmente, a parte final. Sua visão pessimista e apocalíptica deste futuro “altamente conectado e viciante” não se concretizou, claro, mas é simplesmente genial ver tantas ideias e esperanças sucumbirem de um modo tão criativo como aquele. Ao fim, fica aquele gosto amargo na boca, uma espécie de vazio por ver tudo se esvair de um modo sombrio. E é simplesmente lindo ver aquilo e perceber o trabalho de Cronenberg ao longo dos anos, e como o canadense conseguiu manter seu talento para criar e contar fábulas sobre as obscuridades do ser humano. E, bem, Videodrome também vai te hipnotizar, pode apostar. Ah! E pra sua curiosidade: Cronenberg foi aluno de McLuhan na época de faculdade, e Brian O’Blivion é uma referência claríssima ao filósofo. “Long live to the new flesh!

Videodrome” – Excelente


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