Red River, 1948

2 07 2011

Uma das coisas que mais amo na Era de Ouro de Hollywood é a versatilidade de seus diretores. Por mais que, em grande parte de seus filmes, o princípio de uma grande mensagem de caráter seja o que guie seus personagens, nomes como Billy Wilder, Otto Preminger, John Ford, Elia Kazan e outros tantos transitam com maestria ímpar por inúmeros gêneros, como a comédia, o drama e, claro, o clássico americano: o western. Muitos preferem seus “filhos bastardos”, os western spaghetti, mas eu acredito que cada qual tem seu espaço na eternidade e, mais do que isso, seria hipocrisia não dar o devido valor a grandes faroestes americanos, que construíram e influenciaram diretamente toda uma leva de diretores maravilhosos, como Peckinpah, Leone, Corbucci, Sollima, Castellari, Parolini e outros mais. Neste sentido, um dos filmes inesquecíveis para quem aprecia o bom e velho western é Rio Vermelho, de 1948. Dirigido por Howard Hawks (e co-dirigido por Arthur Rosson), o filme é uma genuína aula de cinema.

Seguimos a história de luta e obstinação de Thomas Dunson [John Wayne, no auge], que, ao lado de Mattew Garth [Montgomery Clift] e Nadine Groot [Walter Brennan, inesquecível], persegue seu grande sonho: ser um grande fazendeiro, dono de milhares de hectares e cabeças de gado. Depois de 14 anos tentando se tornar um grande fazendeiro, Dunson percebe que não há mais espaço para seu rebanho no Sul, e decide então cruzar meio país rumo ao Mississipi, onde poderá vender suas inacreditáveis 9 mil cabeças de gado. Com todos seus vaqueiros reunidos, o obstinado Dunson deve provar que toda sua força de vontade é suficiente para encarar uma viagem praticamente impossível, que passará por território indígena, enfrentará a falta de água e o cansaço de seus empregados.

“Rio Vermelho” é uma aula de construção de personagens. Hawks molda com habilidade o caráter deste imenso bando de vaqueiros, gente simples com o sonho de prosperar no Oeste – a síntese do homem comum à época -, ao mesmo tempo em que prepara terreno para o embate entre Wayne e Clift, pai e filho adotivos que naturalmente irão discordar de decisões ao longo do caminho. Wayne é um homem duro, marcado por uma grande desilusão amorosa, que o transforma em alguém durão, sempre pronto a eliminar qualquer um que se oponha a seu caminho, seus anseios. Simultaneamente, boa parte do caráter de Clift é construído com base no que Wayne se tornou, mas o jovem ainda não tem o coração calejado como o de seu pai.

O filme tem todos os elementos que o credenciam como grande clássico americano: a grandiosa trilha sonora Dimitri Tiomkin (o mesmo de Disque M Para Matar, Onde Começa o Inferno, dentre outros), grandes atuações e uma aula de como se dirigir um filme por parte de Hawks – a sequência em que Wayne encara todo seu rebanho e começa a jornada, com a câmera focalizando a expressão esperançosa de todos vaqueiros, é genial. Mas, além disso, Rio Vermelho é carregado de valores universais, como a perseverança, esperança, gana, caráter e amor, de um modo como só os grandes diretores sabem apresentar. Pra muitos parece estranho este tipo de clássico atualmente, pois estes valores foram e ainda são mostrados exaustivamente nas telonas; porém, foram estes homens que fizeram as obras que serviram como “base” para tudo que veio a seguir. Homens como Hawks são inovadores, tão desbravadores quanto os próprios vaqueiros que conduzem o gado por milhas e milhas em busca de algo novo, algo que renove suas esperanças.

“Rio Vermelho” – Excelente

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4 responses

2 07 2011
Just Daniel

Pq eu acho que esse texto veio depois do papo na Vivos lá? hahaha,

To com medo de vcs acharem q eu não dou valor para o cinema da Era de Ouro de Hollywood. Seria suicídio mental meu. Inclusive sou um dos maiores defensores do cinema de gângster dos anos 30-40 e fui quase morto quando disse que o spaghetti western meio q ajudou a demolir o gênero velho-oeste para sempre. Acho Hawks um dos maiores, Red River (E a trilogia inteira, for the matter) uma das maiores joías sagradas do cinema. Já falei, adoro Ford, Sturges, Aldrich, Hathaway e principalmente Hawks.

Só acho que tem uma coisa no spaghetti western, ou no western pós-moderno, na geração do Leone, num pequeno momento daquela época que criou algo subline e único que não se tinha visto nada parecido no gênero antes. Uma crueldade, um realismo, uma atmosfera barroca…dava para sentir areia voando no rosto. Um tiro ERA um tiro de verdade. E não aquelas fumacinhas saindo da pistola do Wayne. Estraçalhava o sujeito no meio. Mas foi um momento que infelizmente não durou muito. Se perdeu muito no sentido de um filme barato para atrair grande público e foi perdendo a mão. Acabou destruindo a sí mesmo e o gênero western clássico junto consigo, e isso que as pessoas não entendem quando eu digo q o spaghetti-western matou o seu gênero-pai. Ele superou e ao mesmo tempo perdeu-se em seu poder.

E claro que tem espaço para tudo, seria horrível se não tivesse. O cinema deve muito para Ford. Só acho q caras como Leone e Peckinpah vieram para aperfeiçoar o que já era maravilhoso e por isso mesmo não consigo achar Ford o mestre de todos os mestres, e sim mais um Obi-Wan Kenobi que ajudou a criar vários Lukes Skywalkers por aí. 😀

2 07 2011
hqsubversiva

Não, Daniel, relaxa que não há nenhuma indireta ou direta neste texto, juro!

É que conheço muitas pessoas que pensam o oposto: preferem o clássico ao spaghetti. No texto só faço questão de reforçar que, como você bem ressaltou, há espaço para os dois. Tenho minha predileção (bem de leve) pelo spaghetti também, gosto da crueza, da intensidade, da moral dúbia e da brutalidade das produções italianas, com certeza.

E este texto veio em tal momento porque o aluguei nesta semana, e vi ontem de noite! Hehehehe

E agradeço por dar sua opinião mais completa por aqui, é exatamente nos debates que aparamos arestas e engradecemos nosso amor e respeito pelo western, seja spaghetti seja americano!

3 07 2011
Ronald Perrone

Eu adoro o filme, mas acho o final extremamente piegas e infantil… por isso dou mais valor a outros westerns do Hawks, como “Onde Começa o Inferno”, por exemplo, um dos meus favoritos do cinema americano.

3 07 2011
hqsubversiva

Também prefiro Onde Começa o Inferno, Perrone, um dos melhores da história. De qualquer modo, Red River é filmaço mesmo, né!

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