You saw her bathing on the roof

15 08 2011

Acorda com aquele gosto amargo na boca. Não conseguia se lembrar quando fora a última vez que despertou sem sentir aquele sabor de dor e tristeza. Sentia-se como um daqueles velhos vaqueiros de bangue-bangue, que dormem sozinhos no meio das gigantescas planícies do Velho Oeste, onde o nada impera, sufoca. Se levanta, coça um pouco a cabeça e pega uma xícara de café. Estava cansado daquele café de ontem – ou era de antes de ontem? Tanto faz, desce queimando pelas entranhas. Acende um cigarro, acende outro, fuma como se fossem aquelas guloseimas que as gentes não conseguem parar de comer. Vai lavar o rosto e é pego de surpresa. Que diabo de lembrança! Como se tivesse entrado numa máquina do tempo no banheiro, senta-se no vaso e olha pra pia. Meu Deus, como noites mal dormidas e esbaforidas faziam bem a ela. Aquela maquiagem levemente borrada era simplesmente encantadora. Enquanto escovava os dentes, ela sempre passava seus cremes e tremiliques caros. “Minha pele é ruim, amor, esse novo creme que comprei é ótimo”, “claro que sim, minha linda, deixa seu rosto com um cheiro ainda mais gostoso”. A visão era hipnótica, conversava em modo automático. Aqueles 1,80m distribuídos em forma de mulher o magnetizavam. Grandes pernas, cintura desenhada sob medida para que encaixasse com a sua, uma bundinha tão comportada e perfeita de se passar as mãos. Os seios eram do tamanho das suas mãos, cabiam perfeitamente. Enquanto pensava em tudo isso, ela aproximava o rosto no espelho. “Será que vou ter rugas, lindo? Não quero ter rugas, minha mãe demorou tanto tempo pra ter”, “se tiver eu não me importo, você é e vai ser sempre do jeito que gosto”. O modo como aquele rosto ingênuo e sacana ficava vermelho o deixava excitado. Então ela começa a passar as mãos naquele cabelo cacheado, cortado à altura dos ombros, do jeito que ele gosta. Ela desarruma um pouco o penteado enquanto massageia o couro cabeludo, gostava desta sensação. Agradecia por ter aquela visão tão íntima e linda e encantadora ao seu alcance. Levanta-se do vaso, cospe a pasta na pia, enxágua a boca e se enxuga. Mas ela continua se olhando no espelho, com aquele olhar meio bêbedo, concentrada nos pequenos detalhes de seu rosto. Se aproxima de sua garota e a abraça por trás; estava excitado, mas sabia que nada ia acontecer, gostava daquela farra. “O cheiro do seu pescoço me deixa louco, sabia?”, “é a sua barba roçando nele que me atrai”. “Pára, chega de bobagem, seu tarado!”, os dois riem bastante e ele se senta de novo no vaso. Pisca e ela não está mais lá, sua barba está maior e descuidada e meio ruiva. Tem mais um trago no seu cigarro e um vazio à sua frente. Traga. “No que você está pensando, amor?”, “em nada, em nada”.


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4 responses

15 08 2011
Alana Phibes

Muito bacana…triste e lírico…

15 08 2011
Janaina Garcia

é… achei nostálgicamente triste.
Acredito que precisamos logo acabar com aquela tequila pra substituir o “amargo da boca” hehe =P

Beijo coleca

PS: Obrigada pela explicação sobre capitão america para nao sentir tãããão deslocada do mundo marvel auhuahauhaua

15 08 2011
hqsubversiva

É, deste fds a maledeta não passa. E não foi nada demais explicar pra vocês o “complexo” (risos) Universo Marvel, hehehe

Beijo!

15 08 2011
sergio viana

triste, cinematográfico e como cada um, fascinante

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