Drive (2011)

12 10 2011

Não tenho bagagem suficiente pra afirmar em letras garrafais, mas me parece que Nicolas Winding Refn seja o “poeta da violência” de nossa geração. Não vi todos seus filmes, mas pelo que pude notar nos três últimos – Valhalla Rising, Bronson e Drive, de 2011 -, o tratamento que o dinamarquês dá à violência é, no mínimo, poético. Seus roteiros se utilizam da ultra-violência como gancho dramático, suas personagens se rendem à brutalidade inerente em nossos cantos mais obscuros, e sofrem as consequências por tais atos.

Drive é uma grandiosa e ousada tragédia. O Motorista (Ryan Gosling) é o típico personagem soturno, monossilábico e fechado, avesso às relações humanas. Tem uma relação única com seu “mentor”, Shannon (Bryan Cranston), uma espécie de alter-ego mais velho e fracassado de si mesmo. O protagonista divide seus dias entre as manobras como dublê e fugas como piloto criminoso. Receoso e arisco, aceita apenas trabalhos com meliantes que compreendam e aceitem suas regras rígidas. No entanto, tudo muda ao conhecer sua nova vizinha Irene (Carey Mulligan) e seu filho Benicio (Kaden Leos), que adentram seu mundo emocional fechado. A partir daí se desenrola toda a tragédia, que progressiva e sanguinolentamente consome a todos envolvidos.

Se nos atentarmos bem, a história não é das mais originais, mas o modo como Refn retrata o vazio do Motorista, tal como maldade/bondade intrínseca aos personagens secundários, é magistral. Municiado de uma trilha sonora repleta de sintetizadores – característica vista também em Bronson – e músicas soturnas, o dinamarquês realiza um trabalho poderoso com seus atores. Há performances marcantes de Albert Brooks e Ron Perlman (a dupla de pseudo-mafiosos), Cranston, Oscar Isaac (marido de Irene, ex-prisioneiro condenado a se manter no mundo do crime), Mulligan (o sopro de esperança no mundo sombrio do protagonista) e, claro, Ryan Gosling. Mesmo sem muitos diálogos, Ryan esbanja talento em poucos olhares e expressões.

Há de se destacar também a ação do filme. No momento em que os núcleos emocionais da obra começam a colidir, Drive acelera o ritmo da narrativa sem colocar os bois à frente da carroça: vemos uma epifania violentíssima recheada com perseguições alucinantes e corpos ensanguentados, mostrados por uma ótica intimista, quase meticulosa. Seria injusto enumerar as sequências inesquecíveis, principalmente por sua abundância.

Ao fim praticamente anunciado, uma potencial “raiva” no espectador dá lugar ao deslumbramento. O final da trajetória percorrida em pouco mais de 1h30min de filme é muito mais que satisfatório. Drive cumpre o que prometera por longos meses de clipes e pôsteres divulgados pela mídia: um filme extremamente bem realizado e planejado, com ação, drama, introspecção e violência em sintonia. Uma obra-prima, de longe o melhor de 2011.

“Drive” – Excelente


Ações

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5 responses

12 10 2011
Alana Phibes

ótimo texto!
eu quando gosto demais de um filme não consigo me expressar coerentemente…

12 10 2011
hqsubversiva

Obrigado, Alana!

12 10 2011
Rogério Dalbem

Nunca vi nenhum filme do Nicolas Winding Refn, nem sabia quem era o cara até ver esse filme. E fiquei tão impressionado quanto eu fiquei quando vi meu primeiro Taratino (Pulp Fiction). E é curioso porque, na primeira vez que vi Pulp Fiction, eu pensei no Tarantino como um poeta da violência, assim como você disse sobre o Nicolas Winding Refn – o que eu concordo. E, apesar de esteticamente esse filme me lembrar um pouco alguns filmes do Tarantino (aquela jaqueta do Motorista é quase igual a do Stuntman Mike, só pra citar), onde todo aquele diálogo nonsense, no final das contas, intensifica a extrema violência, aqui é a falta de diálogos que faz esse filme ser tão impactante. Tem um pouco de Sergio Leone também. Pelo menos para mim, foi isso. Enfim, blá, blá, blá! No meio de tanta merda que saiu este ano, esse filme é uma puta obra de arte. E pensar que poderia mais um Velozes e Furiosos…

12 10 2011
hqsubversiva

Entendo o que tu diz, mas vejo grandes diferenças entre ele o Taranta. Mesmo que os dois sejam “cool”, o Refn tem uma seriedade, um tom mais soturno e menos diálogos – diferença existencial entre ambos. De qualquer modo, conheça o cara – os dois filmes que cito dele são ótimas pedidas, principalmente o Valhalla Rising!

12 10 2011
Alana Phibes

Eu emendo recomendando também a trilogia Pusher!

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