A cegueira que nos erra, meu amor

24 11 2011

Somos todos cegos. Parece que andamos num emaranhado de fumaça cinzenta e esbranquiçada que nos engolfinha, nos engole. Eu estou aqui, você é daí. É tão difícil fazer dois corpos específicos se encontrarem nesta balbúrdia, é tudo tão casual e inesperado e poderoso. Os corpos se chocam, as mãos parecem nunca se tocar. Temos tanto medo, é tudo tão cinza, eu não quero te machucar nem me machucar, eu também não. Somos como moléculas que se tateiam antes de entrar em conjunção, eu sinto tua mão mas logo solto porque não sei como você é não sei nem quem sou eu. Você me toca, tira as mãos e depois me completa. Isso é tão errado, não é? Eu não sei, não quero saber, isso não é errado. Errados somos todos, nossa cegueira nos torna errantes. Quando tudo está errado, o que é certo? Ele não existe, pouco me importa, eu só quero te pressionar contra meu pescoço, quero passar minhas mãos em todo o seu corpo. Então eu sinto sua pele contra a minha, eu olho no seu olho, o que estamos fazendo, seu rosto é tão delicado e macio, você é linda mesmo que eu nunca te veja de verdade. Somos todos cegos. Seu cabelo é tanto e tão macio, seus olhos preenchem qualquer lacuna, mas eu não te vejo. Você está no meio desta fumaça, esta neblina de nicotina e vazio, mas consigo te sentir. Vem, cola teu corpo junto ao meu, tira sua blusa, quero te tocar. Nunca veremos nada, só temos o toque. Você vai embora, eu volto, a gente nunca mais vai se ver? Talvez nunca tenhamos nos visto, pouco importa. Eu quero tudo de novo, você quer minha mão no seu ventre e na sua coxa, eu quero seu arrepio no pescoço, consigo sentir tua arfada na minha barba, morde meu braço, você é minha. Você não é minha, eu não sou tua, você é só minha. Eu não sei quem é ele, não consigo ver nada nesta maldita fumaça. Sou todo cego. Te sinto perto de mim, mas é apenas uma ilusão, você tá longe e longe demais e eu ando no meio de tudo sem ver nada, eu nunca verei nada, você tampouco, mas teu corpo é uma espécie de ímã, seu coração me puxa, sua boca me suga, tua mão me arranha, sua alma me prende. Sei que você está olhando pra mim, eu consigo perceber, você me pede um cigarro só pra chegar mais perto e a gente se abraça. Há um clarão. Nossos olhares se fixam, não dura mais que poucos segundos, estamos cegos novamente. Você é de verdade, eu sei mais do que nunca, espero que eu também seja de verdade. Me dá mais um cigarro, você é teu cigarro, eu sou um trago, nós somos a fumaça. Me dá mais outro, você só existe enquanto houver neblina, eu não te vejo. Nós nunca nos vimos. A gente sempre se vê.


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2 responses

24 11 2011
Sérgio

Poxa, cara, quanta confusão bonita. Essas tais coisas boas que dá na gente de vez em quando serve pra complicar nossa razão. É a intensidade do caos.

25 11 2011
hqsubversiva

=)

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