Crash – Estranhos Prazeres (1996)

28 11 2011

David Cronenberg tem como uma de suas marcas estilísticas o trabalho em relação ao corpo e, principalmente, como sua deformação pode ganhar significados distintos e causar reações variadas. Crash, de 1996, é baseado no livro homônimo de J.G. Ballard, e traz a questão do corpo embebida em uma estranha mistura de sexo e acidentes automobilísticos.


Em um acidente, James Ballard [James Spader] acaba causando a morte de um homem e entra em contato com a esposa do falecido, Helen [Holly Hunter]. Ballard e sua esposa, Catherine [Deborah Kara Unger], são ninfomaníacos e, inicialmente por conta do sexo e do prazer fugidio, ele se aproxima de Helen. Ali, sem perceber, acaba entrando em um estranho universo de adoradores de acidentes automobilísticos, simbolizado pelo instigante Vaughan [Elias Koteas]; neste inusitado meio as pessoas chegam até a emular acidentes famosos, como o que vitimou James Dean nos anos 50.

Este pequeno resumo é meramente a ponta do iceberg que Crash nos mostra. Há uma estranha e doentia adoração pelo disforme, seja na carne humana ou metálica. Aqui no Brasil o filme ganhou um subtítulo que lhe faz jus: “Estranhos Prazeres”. Cronenberg nos traz um obscuro meio repleto de hedonistas, que vêem as batidas e cicatrizes como marcas do prazer, a adrenalina que nos banha no momento da batida é muito mais intrigante e fascinante que a do mero prazer sexual. Até mesmo, se repararmos, todas as feridas abertas, cicatrizes, arranhões e amassões nos carros emulam o órgão sexual feminino – as curvas, vãos e formatos são cópias fiéis da vagina.


Além de conter doses cavalares de sexo, o filme apresenta estes personagens de modo quase que fetichista. O modo como as mulheres se tocam, como os homens suspiram, o sensorial: o metal gélido, o couro, os corpos e línguas quentes, as unhas, braços e parachoques que machucam. Não há apegos sentimentais, pois todos estão em busca pelo prazer. Regras sociais, comportamentos “aceitáveis” são abandonados, a busca pelo ápice da dor e do prazer é o objetivo final de todos os envolvidos.

É interessante notar como Ballard e sua esposa se transformam ao longo da obra, de meros ninfomaníacos em pessoas cujo prazer final é o do choque, da violência, do embate físico em alta intensidade. E, claro, como vício que as batidas e choques se transformam, o perigo aumenta progressivamente – e cada qual enfrenta as conseqüências de tal busca hedonista. “Talvez na próxima, meu amor, talvez na próxima”, sussura James.

Crash – Estranhos Prazeres” – Excelente


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