Corbucci e dois zapatas (quase) gêmeos

30 11 2011

Da trinca de Sergio’s do spaghetti western, Corbucci se destacou como aquele que incutia mais crítica e reflexão social em sua obra. Il Grande Silenzio, de 68, é exemplo cabal disso, com toda sua atmosfera bruta, realista e também pessimista. Mas deixemos Silenzio de lado, e vamos nos debruçar sobre dois zapata-westerns maravilhosos de Corbucci: Il Mercenario, de 1968, e Vamos a Matar, Compañeros, de 1970. O elemento em comum das duas obras, a um primeiro olhar, é Franco Nero no papel de um mercenário estrangeiro em solo mexicano; no entanto, as obras são quase que gêmeas, e complementares em outros aspectos.

Em ambas as histórias mostra-se a ascensão de um “peão”, um “zé-ninguém” que acaba sendo elevado pelas circunstâncias ao cunho de líder revolucionário: em Mercenario temos Paco Ramón [Tony Musante], e em Compañeros temos El Vasco [Tomas Millian]. O Mexico do fim do século XIX/ meados do século XX é o contexto no qual os dois filmes se situam, e, acima de tudo, Corbucci quer nos levar a uma reflexão do que envolve a revolução popular. Quem são estes mártires? Quem os influencia? Quais interesses estas pessoas têm? É tudo pelo bem do povo?

Nero desempenha, em ambos os casos, o papel de “advogado do diabo”, sendo o mercenário/ mercador de armas que fará tudo em prol da revolução, contanto que seja pago adiantadamente. Corbucci usa este simbolismo escrachado da participação das “forças estrangeiras” de dois modos: em um, ao final, o estrangeiro adere às fileiras revolucionárias, de coração – vide a clássica cena em que Nero brada: “Compañeros, vamos a matar!”. Do outro lado, o “Polaco” se distancia e, mesmo ajudando a revolução, mostra que sem dinheiro não há briga a se comprar.

Há semelhanças e diferenças pontuais entre os revolucionários das obras: El Vasco é proletário tal qual Paco, mas desempenha por mais tempo o papel de fantoche. Usado pelas forças rebeldes, Vasco aceita tudo por conta de um novo status quo, onde ele não seria mais outro desconhecido na multidão. Paco, pelo outro lado, faz conscientemente sua revolução mais por si que pelo povo. “Não morrerei nestas minas como meu pai e meus irmãos, vou sair daqui”, pontua. No entanto, ao fim ambos realizam a verdadeira essência da luta contra os poderosos, e Corbucci reafirma sua veia esquerdista.

Claro, ainda há outros pontos congruentes entre Mercenario e Compañeros, como os papéis de Jack Palance, mercenário que caminha junto aos poderosos apenas para nutrir sua vingança pessoal, e as trilhas magistrais da dupla Ennio Morricone/Bruno Nicolai – que embalam o duelo inesquecível na arena de tourada em Mercenario e a retomada às armas ao fim de Compañeros.

No geral, acredito que mesmo sendo incrivelmente similares e fantásticos, os dois filmes mostram pequenas e importantes diferenças de revoluções populares: o papel dos estrangeiros, alheios às agruras do povo, que são por muitas vezes apenas interesseiros num cenário favorável; mas ele também destaca que estes “forasteiros” podem mudar de visão e aderir à causa revolucionária.

Numa visão mais ampla, Corbucci nos mostra as seduções e interesses que envolvem lutas tão brutas e importantes, e reafirma sua “esperança” no povo, que pode sim se conscientizar e pegar em armas por mudanças maiores. Paco e Vasco são extremamente simbólicos neste sentido, sendo personagens que tomam consciência de suas importâncias para melhorar as coisas. E, de quebra, o diretor italiano nos brinda com duas obras-primas, engajadas e bem conduzidas, com ação, humor, atuações marcantes e, acima de tudo, crítica social.

Vamos a Matar, Compañeros” e “Il Mercenario” – Excelentes


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4 responses

30 11 2011
Pedro Pereira

São dois filmes excelentes. Reflecti por diversas vezes sobre qual seria o meu favorito e acabei por decidir que COMPAÑEROS ganha o braço de ferro. Superdivertido!


Pedro Pereira

http://por-um-punhado-de-euros.blogspot.com
http://auto-cadaver.posterous.com

2 12 2011
caiolefou

Tão na fila há tempos e até hoje não vi.

2 12 2011
hqsubversiva

Pois crie vergonha na cara e os veja pra ontem!

10 12 2011
Bruno Barrenha

Acho os dois maravilhosos, de qualquer jeito!
Enquanto o Leone tem a disputa entre Três Homens em Conflito e Era uma vez no Oeste, Corbucci tem entre Il Mercenario e Compañeros.

A resenha no meu blog, sobre Il Mercenario: http://analisando-o-oeste.blogspot.com/2011/12/critica-especial-corbucci-e-il.html

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