Um dose de mescal pólvora e sangue

21 01 2012

Entrara naquele saloon malcheiroso e moribundo para fugir do escaldante sol que lhe era imposto na rua empoeirada e vazia naquele momento. Sua garganta demandava algum líquido para amansar a sede, e era exatamente isto que pretendia fazer naquele exato instante. Aproximou-se do bartender, que tinha cabelos grisalhos engomados com algum creme barato, camisa de manga dobrada um pouco surrada pelos anos de uso e um bigode mal aparado, que pendia levemente para sua bochecha esquerda. Apoiou-se no balcão e fez o sinal com o indicador, o atendente pegou a única garrafa de uísque aberta encheu três quartos do copo que estava levemente embaçado e talvez sujo e depois coletou o níquel que o pistoleiro lhe pagara pela bebida nauseabunda. A sede era tanta que ele apenas despejou o líquido em sua boca deixando-o escorrer entranhas adentro sem lhe sentir os gostos. Outro, disse monossilábico. Tomou um pequeno gole enquanto alisava seu cinturão de couro curtido, sentindo que o dia estava estranho e havia alguma coisa no ar que indicava algo a suceder-se num futuro próximo sem saber no entanto quão próximo seria então era bom estar pronto mas também merecia uns goles daquela bebida barata e forte que era a única coisa que aquele buraco poderia oferecer por duas moedas carcomidas. Neste momento, um pistoleiro mexicano trajando um chapéu com uma pena de águia entrava no saloon. Sabia que era aquilo que ia lhe acontecer no futuro próximo que já não era mais futuro e sim presente.

O pistoleiro se aproxima, pede uma dose de mescal e troca olhares com o outro que já estava ali sentado degustando seu uísque. Tira seu chapéu e limpa a pena, que estava um pouco suja por conta dos ventos fortes que acometem os homens naquelas planícies quentes e secas, bebe seu mescal e continua fitando o bandoleiro, que a este ponto já havia acabado com sua bebida. Faz tempo que queria te encontrar, hombre, soube lo que hiciste en Presidio, arrumaste una briga com el pistolero errado, gringo de mierda. Andale, gringo, hablo contigo, carajo, bradava. O bandoleiro o encara com ar de desdém, suspira lentamente e sai pela porta da frente do local e espera na rua. O mexicano ajeita seu chapéu, esbaforido e visivelmente transtornado, sai enfurecido e observa seu algoz, posicionado no meio da rua, com sua canhota aguardando o momento do saque. O pistoleiro com chapéu de pena de águia fica frente a frente com o bandoleiro, seu rosto moreno e com algumas rugas aos pés dos olhos e mal barbeado começa a suar tanto pelo calor descomunal que os atinge como também pelo nervosismo e ansiedade do duelo. Aturdido pela mistura de raiva vingança e mescal, o mexicano está um pouco hesitante. Vê o bandoleiro desembainhar seu Smith & Wesson e quando tenta tirar seu revólver do coldre sente duas balas lhe perfurando uma vértebra na parte esquerda do torso e o peitoral. Cai de imediato no chão e sente o sangue lhe subindo à garganta. Cospe. Tenta respirar mas não consegue. Ouve o tilintar das esporas do bandoleiro se aproximarem. Olha para o alto com os olhos semicerrados por conta do sol do meio-dia que os assola e sente o disparo. Em seu último momento de vida o mexicano engole pólvora e chumbo e sangue e um par de dentes sujos e careados. Fala demais, diz o bandoleiro.

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