The Searchers (1956)

6 08 2012

A porta se abre. Do lado de fora, a terra é seca, poeirenta, áspera. De certa forma, a porta delimita o refúgio, o local seguro do lar, enquanto o que não está ali contido é perigoso, desconhecido. Há seres que nasceram para vagar por este mundo sem limites, homens cuja principal qualidade é a de sobreviver. Criados por noites estreladas e dias escaldantes, por planícies que queimam e também congelam, cânions amedrontadores. A lei deste mundo cruel é bem diferente daquela que impera dentro da casa. Há sangue, inimigos, paisagens hostis. Um homem encrustece sua alma para poder trilhar neste mundo duro. Condenado a matar e morrer sem piedade, ele vaga.

Este homem é o Outro. Os de dentro não podem ser este invasor de fora, mesmo que sejam ligados pelo sangue como irmãos, tios, sobrinhos. Aqueles que pertencem a este mundo exterior não lidam com seus sentimentos da mesma forma que os de dentro, muito pelo contrário. No mundo de fora, o preto e o branco aparentemente não se confundem. As misturas entre estes dois pólos são obscuras, os encontros são em sua maioria choques, violências. Mas, veja, o branco é o preto. O Outro tem mais em comum com o Eu que se pode perceber. São diferentes, mas são iguais em muitos momentos.

Este ser, moldado pela aspereza dos campos pelos quais cavalgou, pelos solos arenosos onde se deitou e dormiu sonos irrequietos, este ser vive de uma maneira muito particular. Todas suas visões acerca do mundo são forjadas pelo sacrifício, dor e sobrevivência. Ele dificilmente revê conceitos: mata e morre à luz de um só Sol. No entanto, o mundo é tão vasto e rico e nós somos tão complexos e contraditórios que uma indefinível mistura força olhares diferentes. Nos faz mudar concepções, aceitar aquilo que nos era tão distinto, que nos era tão longínquo.

Ethan Edwards, após anos nutridos e movidos por uma vingança contra a tenebrosa e misteriosa figura do Outro, percebe que as fronteiras entre nós e eles são maleáveis, que todos somos mais ricos e amalgamados do que ele imaginava. Que ele não precisa ser, incessantemente, aquele que vive em eterno conflito com a fronteira, num movimento de constante fricção. E durante a longa jornada de aprendizado pela qual ele passa, entretanto, a ruptura é tão grande e significativa que, ao fim, ele continuará não pertencendo ao lado de dentro. Não porque ele não almeja isto, mas porque o seu destino o prende ali fora. O mundo do ontem foi onde ele nasceu, e é onde irá morrer. No amanhã não há espaço para Ethan Edwards.

 

The Searchers” (Rastros de Ódio) – Excelente


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