Viver e Morrer em Los Angeles (1985)

9 08 2012

Por Ronald Perrone, do Dementia 13

“Buddy, you’re in the wrong place at the wrong time.”

Richard Chance (William Petersen) possui algumas habituais características do policial controverso cinematográfico: é daqueles que seguem suas próprias regras, destemido e não treme na hora encarar a bandidagem. Aparentemente, é o homem da lei perfeito para os amantes do gênero policial. No entanto, as semelhanças com um Dirty Harry ou Shaft param por aqui. Analisando as atitudes do sujeito ao longo do Viver e Morrer em LA, de 1985, percebe-se com muita sutileza que, no fim das contas, ele não passa de um agente incompetente, impulsivo e arrogante, agindo pelo instinto de vingança, que termina, perdoem meu francês, realmente fodido!

Não é a primeira vez que William Friedkin se arrisca dessa maneira. Chance não é o único personagem “Friedkiano” que tem suas limitações e imperfeições colocadas em evidência. Também não é a toa que estamos falando de um dos diretores mais ousados do cinema americano, um autêntico provocador. Talento o sujeito sempre teve de sobra, mas subverter deve ser uma de suas principais diversões nessa brincadeira de fazer cinema e parece não dar a mínima para o que o grande público acha.

Isso fica claro pela maneira como arranja soluções questionáveis para os seus filmes: os vários finais abertos, pessimistas e reflexivos, sem contar as preferências por temas polêmicos e personagens ambíguos que nem sempre são bem vistos aos olhos do espectador comum. Deste modo, Viver e Morrer em Los Angeles segue a máxima shakespeariana na qual “consisão é a alma do espírito”, ou, em outras palavras, o filme é um dos grandes definidores do cinema de Friedkin.

“Guess what? Uncle Sam don’t give a shit about your expenses. You want bread, fuck a baker.”

O filme começa com o tal agente, Richard Chance, prestando serviço de segurança ao Presidente dos estados Unidos em uma conferência em Los Angeles. Durante a ocasião, um homem-bomba islâmico tenta “encontrar” suas setenta e duas virgens lhe esperando no paraíso, levando o presidente americano junto. Não consegue, graças a Chance e seu parceiro. Os dois se sentam no terraço e pensam sobre o que acabou de acontecer. Então dizem algo como, “Vamos beber!” e logo inicia uma elegante montagem, com uma música estilosa, mostrando várias imagens que representam a Los Angeles do filme.

Chance, a princípio, é mostrado como o policial durão que se espera. Quando seu parceiro é morto a tiros, prestes a se aposentar, sua truculência de fachada parece ficar mais intensa. Não demora muito para começar a perder a cabeça, infringir leis e fazer o que for preciso para se vingar. Geralmente, no lugar comum dos filmes do gênero, o policial que age dessa maneira é sempre visto como um sujeito cool, o policial casca grossa que queremos ser quando crescer. No caso de Chance, Friedkin lhe foi muito cruel…

A cada passo adiante para resolver o caso, ficamos convencidos de que o protagonista é um idiota cujo distintivo lhe dá direito de se achar acima da lei, de quebrar todos os protocolos, de ser um prepotente chantagista com todo mundo pelas ruas de Los Angeles, apesar das boas intenções… Tenho a impressão de que o próprio Chance nem tenha consciência da espécie de indivíduo que ele se torna. E é exatamente esse tipo de ambiguidade que gera o tour de force que torna o personagem tão singular, tão especial, tão badass! E Petersen retrata tudo isso com uma naturalidade absurda!

Mas o que seria de Chance sem um vilão a sua altura? É aí que entra em cena um jovem Willem Dafoe, encarnando o artista que usa de seu talento para falsificar dinheiro, além de ser um assassino sangue frio – responsável pela morte do parceiro do protagonista. Não me surpreende a carreira dele ter decolado após Viver e Morrer em Los Angeles, porque seu desempenho aqui é algo magnífico, aquele olhar expressivo de psicopata nunca esteve tão assustador.

“- Why are you chasing me?
– 
I don’t know, why you running?
– Cause you’re chasing me.”

Viver e Morrer em Los Angeles não é exatamente focado na ação. A sua essência segue a estrutura de um thriller policial e, obviamente, não poderiam faltar algumas sequências mais movimentadas e tensas, como tiroteios e perseguições. Mas Friedkin as intensifica com uma boa dose de violência e realismo. As mortes ganham um peso muito grande dessa maneira – como é o caso do assassinato do parceiro.

Mas a grande sequência de ação do filme, a cereja do bolo de Viver e Morrer em Los Angeles, como acontece em Operação França, é, sem dúvida alguma, a longa perseguição de carros em alta velocidade no meio do tráfego, das áreas industriais, linhas de trem, e até na contramão de uma freeway! Um verdadeiro espetáculo! Friedkin se especializou nesse tipo de cena, nesse bailado automobilístico exagerado e belo. Chega a ser poético. E aqui a montagem possui uma baita energia acentuada pela carga dramática que a cena carrega. É a maior aula de cinema do professor Bill Friedkin para quem ainda não sabe o que é a porra da montagem! Algo que os aspirantes a cineastas de hoje não fazem idéia do que seja!

E o que é um clássico dos anos oitenta sem uma trilha sonora oitentista, daquelas bem datadas?! Wang Chung fornece a trilha sonora, além da música tema e todos os sintetizadores que compõem o clima. É claro que o fato das músicas serem tão datadas pode proporcionar um obstáculo para o espectador que se incomoda com esse tipo de detalhe. Como sou um amante da música pop brega e datada dos anos 80, acho que não poderiam ter escolhido um som melhor.

“I’m getting too old for this shit.”

Quando o editor deste blog me convidou para escrever sobre Viver e Morrer em Los Angeles, eu entrei numa enrascada. A princípio, achei que seria um prazer escrever sobre um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Por outro lado, este mesmo motivo me deixa sempre descorfortável. Escrever sobre algo que tanto admiro é um trabalho árduo. Mas acho que saiu algo… [Nota do editor: tá sensacional!]

É uma pena que Friedkin não tenha o devido respeito por Viver e Morrer em Los Angeles. Quando o diretor é lembrado (algo raro atualmente), sempre citam O Exorcista e Operação França. Mas é este aqui que me estimula, que me faz sentir necessidade revê-lo. É a minha droga. Não consigo passar muito tempo sem revisitar o universo criado por Friedkin, a Los Angeles desordenada e ensolarada, os personagens complexos… mesmo tendo consciência dos destinos trágicos e chocantes que o roteiro cuidadosamente prepara. E a edição nacional do DVD, cheio de extras e o final alternativo ridículo, quebra um bom galho.

“Viver e Morrer em Los Angeles” – Excelente


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