Django Unchained (2012)

20 01 2013

Eis que finalmente chega o momento de ver o western spaghetti de Quentin Tarantino na telona. Django Unchained, de 2012, foi, por muitos meses, alvo de muita expectativa e esperança de fãs do gênero, que ganha aqui uma grandiosa história em tons de homenagem e, claro, referencialidade. Desde sua primeira cena, Jamie Foxx [Django Freeman] mostra que, no fim das contas, a melhor escolha de Will Smith foi ter recusado a oferta de ser o protagonista do faroeste de Tarantino: Foxx conseguiu pegar o “espírito” de seu personagem, criado por Quentin a partir de um hall de protagonistas outros em diversos filmes do gênero de outrora, sabendo assim como mostrar-se enigmático, imponente, letal e com um humor ácido. Seu companheiro de aventuras, Christoph Waltz [Dr. King Schultz], não deixa por menos e também nos entrega um tempo de tela competente, carismático e engraçado; é interessante notar semelhanças na forma como tanto King quanto Hans Landa, seu personagem anterior em conjunto com Tarantino, se manifestam: há um privilégio de grandes diálogos e frases de ambos personagens, casando perfeitamente com os trejeitos quase que teatrais de Waltz. Por fim mas não menos importantes ainda destacam-se a dupla Samuel L. Jackson [Stephen] e Leonardo DiCaprio [Calvin Candie], responsáveis por uma doentia fazenda no Mississipi, onde Candie treina seus “mandingos” – negros lutadores e escravos, comprados tendo em vista rinhas que os forçam a digladiar-se à morte. Ainda há outros nomes que merecem créditos no filme, como Franco Nero, em sua rápida (e honrosa) participação, James Remar – que faz dois personagens ao longo do filme – e Kerry Washington – como a amada Brunhilde, esposa pela qual Django tanto procura.

Poster

Django Unchained é, sem dúvidas, um filme a ser visto na telona. Uma das principais características do western spaghetti é o aproveitamento das unicidades de uma exibição em cinema, com suas grandes e retangulares telas – perfeitas para suas tomadas panorâmicas e close-ups extremos, nos quais nossa visão por si só já é orientada para esta perspectiva “retangular” -, sistemas de som potentes e uma escuridão que se faz necessária para o adentramento da narrativa. Tendo isso claro, me parece que Django possui alguns problemas de ritmo e edição – fator que, de primeira, poderíamos creditar à ausência de Sally Menke, costumeira montadora dos longas de Tarantino e que faleceu após Bastardos Inglórios. Com 2h40 de projeção, o filme não se envergonha de ser uma grande fábula sobre os confins do Oeste escravista norte-americano, sendo aí no meio inclusas diversas situações cômicas que têm sido mal interpretadas por críticos e espectadores, que taxaram o longa de racista. Oras, como falar sobre um período histórico como esses e não caracterizar os despautérios e agressões que os negros tanto sofreram (e, de algum modo, ainda o sofrem)?

Senti que a complexidade desta representação suscita bons momentos – como a própria construção de Django, sua mudança de escravo preso para caçador de recompensas liberto, por ex. -, como também atravanca o ritmo do longa. Além disso, talvez o diretor tenha “se empolgado” na hora de desenvolver seu filme, surgindo assim algumas sequências de beleza estética indiscutíveis, mas que acabam tornando o desenrolar das ações da narrativa principal um tanto quanto presas: há momentos em que você sente que a história prossegue aos trancos e barrancos, com personagens agindo de modos estranhos e até não-condizentes com suas próprias formações ao longo do filme.

Mesmo assim, Tarantino nos lembra mais uma vez como sabe se utilizar de suas possibilidades estéticas: todas as cenas de ação são impecáveis, com ênfase para as brigas e tiroteios, ora sérios, ora cômicos, mas sempre muitíssimo violentos. Há todo um jogo de luzes, sombras, fumaças, movimentos, câmeras lentas e contrastes que o diretor novamente usa de modo brilhante – aliando-se ainda a uma de suas melhores trilhas sonoras, repleta de clássicos temas de Ennio Morricone, Luís Bacalov, Riz Ortolani, dentre outras canções, como rap’s contemporâneos, rock’s setentistas, etc.

Seria hipócrita de minha parte dizer que Django Unchained foi o que eu esperava: me decepcionei um pouco com o filme sim. Isso, no entanto, não me faz pensar que o longa é ruim, mas me lembra que há alguns problemas estruturais contidos na obra que me parecem sérios, como a questão da falta de harmonia no ritmo das ações, e até mesmo a gigantesca duração do longa. Creio, inclusive, que a obra tende a “envelhecer” mal, diferente de outros longas de Quentin. Talvez Django sirva não apenas como uma grande e divertida homenagem ao western spaghetti, mas também como lição ao próprio Quentin Tarantino neste ponto de sua carreira: seria o momento de repensar o ritmo de seus longas? Como produzir algo intertextual, que honre suas “fontes originais”, mas que ao mesmo tempo não seja apenas uma obra referencial, para que consiga, de fato, trazer novidades e criatividades? Estas questões só serão respondidas daqui algum tempo, de alguma forma. Torço para que ele consiga transpô-las, e volte a fazer obras criativas e ao mesmo tempo referenciais.

Django Unchained” – Muito Bom


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