Cosmopolis (2012)

27 09 2012

Depois de tanta espera, não imaginava que David Cronenberg fosse me surpreender. “Cosmopolis“, pensava eu, “será um filmaço”. Estava completamente enganado: é muito mais do que isso. Não há sombra de dúvidas que, no cinema mainstream mundial da atualidade, não haja nenhum filme com o quilate comparável a este, que me parece tão urgente, necessário e poderoso. Um filme, baseado no romance homônimo de Don DeLillo, que escancara questões históricas do cinema de Cronenberg – o corpo, o sexo, o poder social -, e ainda as faz coincidir/ dialogar com aspectos tão inerentes e basilares às nossas mazelas contemporâneas – o ciber-capital, poder que constrói mais dinheiro que constrói mais poder, e, consequentemente, as relações fugidias, homogeneamente “individualizadas”, o mundo não-tátil. Não por coincidência, exceto Robert Pattinson – com atuação distante e vazia, perfeita para este protagonista -, todos os personagens apenas transitam na tela. Passam, debatem em conversas quase surdas (no sentido dos falantes estarem dissonantes), mas que evoluem para uma linha-contínua que aborda tanto do que vemos hoje em dia ao nosso redor. Muitos disseram (e ainda dirão) que o filme é tedioso: ledo engano. Uma das críticas mais necessárias e urgentes que podemos produzir hoje, meus caros, é Cosmopolis. Uma obra, no mínimo, essencial.

Cosmopolis – Excelente





Cosmopolis – poster

16 04 2012





Cosmopolis

22 03 2012

Olha o Cronenberg calando minha boca com um teaser fodidão.





Crash – Estranhos Prazeres (1996)

28 11 2011

David Cronenberg tem como uma de suas marcas estilísticas o trabalho em relação ao corpo e, principalmente, como sua deformação pode ganhar significados distintos e causar reações variadas. Crash, de 1996, é baseado no livro homônimo de J.G. Ballard, e traz a questão do corpo embebida em uma estranha mistura de sexo e acidentes automobilísticos.


Em um acidente, James Ballard [James Spader] acaba causando a morte de um homem e entra em contato com a esposa do falecido, Helen [Holly Hunter]. Ballard e sua esposa, Catherine [Deborah Kara Unger], são ninfomaníacos e, inicialmente por conta do sexo e do prazer fugidio, ele se aproxima de Helen. Ali, sem perceber, acaba entrando em um estranho universo de adoradores de acidentes automobilísticos, simbolizado pelo instigante Vaughan [Elias Koteas]; neste inusitado meio as pessoas chegam até a emular acidentes famosos, como o que vitimou James Dean nos anos 50.

Este pequeno resumo é meramente a ponta do iceberg que Crash nos mostra. Há uma estranha e doentia adoração pelo disforme, seja na carne humana ou metálica. Aqui no Brasil o filme ganhou um subtítulo que lhe faz jus: “Estranhos Prazeres”. Cronenberg nos traz um obscuro meio repleto de hedonistas, que vêem as batidas e cicatrizes como marcas do prazer, a adrenalina que nos banha no momento da batida é muito mais intrigante e fascinante que a do mero prazer sexual. Até mesmo, se repararmos, todas as feridas abertas, cicatrizes, arranhões e amassões nos carros emulam o órgão sexual feminino – as curvas, vãos e formatos são cópias fiéis da vagina.


Além de conter doses cavalares de sexo, o filme apresenta estes personagens de modo quase que fetichista. O modo como as mulheres se tocam, como os homens suspiram, o sensorial: o metal gélido, o couro, os corpos e línguas quentes, as unhas, braços e parachoques que machucam. Não há apegos sentimentais, pois todos estão em busca pelo prazer. Regras sociais, comportamentos “aceitáveis” são abandonados, a busca pelo ápice da dor e do prazer é o objetivo final de todos os envolvidos.

É interessante notar como Ballard e sua esposa se transformam ao longo da obra, de meros ninfomaníacos em pessoas cujo prazer final é o do choque, da violência, do embate físico em alta intensidade. E, claro, como vício que as batidas e choques se transformam, o perigo aumenta progressivamente – e cada qual enfrenta as conseqüências de tal busca hedonista. “Talvez na próxima, meu amor, talvez na próxima”, sussura James.

Crash – Estranhos Prazeres” – Excelente





A Dangerous Method

22 06 2011

O trailer ficou capenguinha, mas é um filme do Cronenberg, então… respect!





Videodrome

29 05 2011

A associação entre as ideias de Mcluhan e Videodrome, de 1983, do gênio David Cronenberg (canadense como Marshall), é inevitável. À época, pré-internet, McLuhan acreditava que a TV se desenvolveria de tal modo que a utilizaríamos como a nossa internet atual, num mundo extremamente interligado sócio-econômico-politicamente. Cronenberg se apossa desta visão numa espécie de fantasia mcluhanianaorwelliana (rememorando o conceito da tela do Grande Irmão de 1984) repleta de violência, sexo e sadismo, num futuro sombrio extremamente interessante. Claro, só poderia sair uma obra-prima deste samba do crioulo doido.

Max Renn [James Woods ainda bem novinho] é o proprietário de um canal pornográfico numa sociedade corrompida pela televisão. Neste mundo visionado por Cronenberg (também roteirista do longa), a televisão se tornou um vício como outro qualquer, inclusive com instituições que “abrigam” viciados em TV e lhes fornece poucas horas de qualquer porcaria televisionada. Então, em uma de suas viagens pirateadas por programas de outras partes do mundo, Renn descobre algo extremamente sádico, violento, sem conteúdo e politicamente incorreto: Videodrome. Este programa mostra mulheres sendo açoitadas, torturadas e mortas em um cenário hipnotizantemente vermelho; não se sabe se tudo é uma grande farsa, ou se é pra valer. Mesmo relutante, Max não consegue tirar seus olhos do programa, que o agarra como se fosse um ímã de humanos. Apesar de toda a repulsa e asco causadas pelo conteúdo abusivo, Videodrome o fisga.

A partir disso, toda a percepção que Renn possui da realidade começa a se distorcer lentamente. Daí pra frente vemos uma mistura de política, insanidade e violência exacerbada apresentada de, certa forma, um modo também hipnotizante. É inegável que todo o jogo de contrastes e efeitos especiais maravilhosos que Cronenberg realiza também fisga seu espectador, que partilha o asco e insanidade de Renn ao assistir à Videodrome. A cada TV que pulsa ou estômago que abre, nós nos contorcemos aqui no mundo real, e ficamos mais e mais sedentos até descobrir o final dessa grande epifania sombria.

O roteiro e atuações do filme já o sustentam. Mas, como bem sabemos, a marca registrada de Cronenberg, ao utilizar a violência extremada por meio de efeitos especiais e de maquiagem dá um tom ainda mais ousado ao filme. A equipe de special make-up effects encabeçada por Rick Baker (“Star Wars Episódio IV”, entre outros clássicos) cria cenas e situações extremamente repulsivas – como a morte no palco, as fitas na barriga e a mão-revólver – sem CGI’s, o que deixam tudo ainda mais vistoso.

O que mais me atrai em Videodrome é, provavelmente, a parte final. Sua visão pessimista e apocalíptica deste futuro “altamente conectado e viciante” não se concretizou, claro, mas é simplesmente genial ver tantas ideias e esperanças sucumbirem de um modo tão criativo como aquele. Ao fim, fica aquele gosto amargo na boca, uma espécie de vazio por ver tudo se esvair de um modo sombrio. E é simplesmente lindo ver aquilo e perceber o trabalho de Cronenberg ao longo dos anos, e como o canadense conseguiu manter seu talento para criar e contar fábulas sobre as obscuridades do ser humano. E, bem, Videodrome também vai te hipnotizar, pode apostar. Ah! E pra sua curiosidade: Cronenberg foi aluno de McLuhan na época de faculdade, e Brian O’Blivion é uma referência claríssima ao filósofo. “Long live to the new flesh!

Videodrome” – Excelente





Cosmopolis

27 05 2011

Quero ver o que o Cronenberg vai tirar dessa boneca. E não me refiro à loira.








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