Relatos de um (talvez?) protestante

18 06 2013

“Sabe, mãe, eu pensei muito em você antes da primeira grande manifestação. Pensei muito em tudo que apreendi de você, uma mulher trabalhadora. Pensei muito no que estamos vivenciando em nosso país hoje, época em que me encontro no início/ parte inicial da minha “maturidade política”. Moro fora, tenho que ganhar meu dinheiro e me sustentar, estudar, escrever, beber, aproveitar, transar, sonhar, viver. Sou adulto, acredito que devo defender minhas bandeiras. Estudo porque acho que posso de alguma forma contribuir a alguém com o que produzo, com o que faço pra viver hoje. Mas, como homem criado com muito amor e condições financeiras relativamente boas, poucas vezes fui realmente a manifestações. Tinha uma dúvida sobre aquilo, tinha um pouco de medo também, do que não conhecia, do que é repressão de verdade, do que é violência de verdade, do que realmente acontece com muitas e muitas pessoas em nosso país, no mundo. Eu pensei em tudo isso porque pela primeira vez na minha vida me sentia compelido a ajudar em algo, a atuar politicamente (sim, isso é política, isso é vida, a vida se articula por relações, por jogos, por ideologias, por relações de poder – ou seja, é política também) em prol de algo que eu acreditasse. Como diz aquela frase clássica sobre os jovens das antigas, sei apenas o que eu não quero, o que eu vejo e não concordo. O Rio de Janeiro é um lugar incrível, e ao mesmo tempo é um lugar muito tenebroso. Há uma relação muito opressiva e desigual por parte do governo para com o povo que mora aqui, quem é daqui e não tem o que interessa à cidade, na visão do governo (ou seja: dinheiro). Eu sou alguém que está à mercê dos mandos e desmandos do governo coercivo daqui, tal como muitos e muitos outros. Eu decidi ir à manifestação, não falei pra você. No dia seguinte aconteceu uma outra manifestação, dessa vez na minha cidade daqui mesmo, que não é o Rio, e houve confronto – eu tinha ido embora antes do bicho pegar no dia anterior, sem saber. Tirei minha camisa, protegi minha boca e nariz. Corri, me revoltei, gritei, ocupei um espaço. Estava lá, fazendo número, Mostrando que há outras pessoas que também olham para o seu redor e vêem coisas parecidas com as que eu vejo. As relações de desigualdade, de conservadorismo político-social. De uma sombra estranha de ideias retrógradas e perigosas, que insiste em ficar por nossas cabeças. Não me machuquei, me mantive seguro, mas também enfrentei, vi e senti de perto. Talvez seja um daqueles suspiros dos jovens (de corpo ou espírito), que sabem que aquele é o momento da vida de fazer esse tipo de loucura… ou talvez não, quem sabe? Ontem estive no maior protesto, me juntei junto a pelo menos mais outras 100 mil pessoas, fui parte de algo maior. Vi de perto a violência, temi, me mantive. Junto com tantos outros que nunca imaginaram que estariam lá. Que estariam munidos pela coragem e pela esperança. Pelo ser jovem: por sonhar. Por saber duvidar, saber a hora de se postar perante algo. Nunca me senti tão vivo na minha vida, sabe, mãe? Nunca me senti tão atento, forte, esperançoso como naquele momento. Me senti parte de algo maior, muito maior. Uma ideia, um sonho. Uma possibilidade de melhorar, de ajudar. Eu vou me cuidar, como sempre o fiz, mãe. Mas não se esqueça que precisamos querer e conseguir mudar coisas. E é isso que estamos tentando fazer, de coração. Apenas torça pela gente.”

alerj

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O ser e o pensar

20 05 2013

china

Pensar é um ato solitário por natureza. Já dizia aquele músico que “não há nada mais sozinho do que ser inteligente”. Talvez estejamos condenados a sermos eternamente imersos nesse fluxo irregular de raciocínios, lógicas, contextos e encadeamentos sobre experiências, sobre fatos, sobre acontecimentos e sobre o infinito. Há o desafio, inerente ao ser humano, de tentar dar vazão a essa corrente de caminhos sem começo nem fim. Escrevemos, pintamos, filmamos, meditamos. Somos os únicos convidados da nossa dança do concreto – tão subjetivo, (ir)real. Dançamos solitários; por vezes tão próximos, noutras distantes de tudo e todos. A sabedoria milenar oriental conseguiu, entretanto, propagar uma alternativa: a harmonia. O silêncio ensurdecedor. A quietude que, no fim, esconde tanto ao mesmo tempo que estanca, para cada um de nós, a inquietude de nossas mentes. Dizem que um texto diz muito mais sobre seu autor do que sobre o que ele quer retratar. Respiro fundo, sou eu, falo em silêncio, falo sem parar. Na bela e fugaz evanescência de nós mesmos permanecemos. Escrevo. Tento. É pouco, mal arranha a superfície desse algo tão sem limites que somos nós. Que sou, serei, fui. Que eu fale sobre mim, que talvez você, ao ler, pense sobre você. A solidão não é, definitivamente, aterradora. Não estou sozinho, pois estou acompanhado de eu e outros tantos eu’s. Diferentes, passionais, subjetivos, solitários. Aquiete-se, pense.





Up on the ladder of our time to escape

13 10 2012

Não há inspiração que se atravanque com tal visão. Com tal lembrança vívida, quase táctil de alguém. De alguém que é algo que é tantas outras coisas, tão indefinível. Misterioso tal qual somos nós todos, no âmago de cada um. É incrível que tanta lógica se perca no meio deste labirinto, desta conjuntura de sentimentos quase irracionais. Mais incrível ainda é pensar que esta conjuntura, esta visão tão poderosa não é única: se multiplica conforme nossa vida anda. Se pra frente ou para os lados, não sei informar, mas sei que anda e anda sem pensar pr’onde vai correr. E, junto com isso, há tantos pontos em comum! Quantos encontros, gostos, ideologias e sonhos em comum, recorrentes. Presentes. Então, bem, o que nos resta além de escrever? De tentar traduzir um bocado desta confusão boa, desse emaranhado de memórias? De tentar vivê-los mais uma vez… ressignificá-los. De quiçá mantê-los vivos. Se, um dia, o foram.





A pólvora que forja o perdão

10 08 2012

Amigos, segue abaixo um trechinho do conto western que acabei de escrever recentemente. Espero que gostem!

“O forasteiro tinha um tiro limpo às mãos. Horas antes, decidira que Redención não representava nada mais que um lugar repleto de pessoas cujas carnes e ossos não lhe significavam nada. Uma vida a mais ou a menos não faria diferença, tal como uma lágrima que se perde na chuva. Sua arma estava carregada, pronta para qualquer confronto. Então, o rifle ruge duas vezes, uma seguida da outra por um intervalo de poucos segundos. O cheiro de pólvora ascendeu quente às suas narinas, enquanto as balas irromperam o deserto de medo e silêncio que estava instaurado na distância entre o cano e a cadeira na qual o gorducho estava sentado. O xerife, que apregoava a seu sub-delegado que não podia deixar-se enfraquecer, fechou seus olhos por reflexo quando um esguicho de sangue quente e levemente enegrecido lhe saltou às frontes. De súbito, ao abrir os olhos jogou-se no chão, para trás de uma tábua de madeira que solidificava o apoio da entrada da delegacia. Caiu e sacou seu revólver, o inseriu em uma fresta e atirou em contra-ataque aos tiros ouvidos. Johnson esvaziou as câmaras quase que a esmo, em um alvo que não estava mais onde estivera há menos um minuto atrás – e que poderia facilmente estar em outro ponto com tiro limpo. Apenas naquele momento o xerife pôde olhar para trás e viu a imagem dantes vívida e agora mortificada de seu ajudante. Havia dois buracos em Billy, logo acima de seu peitoral esquerdo. O defunto vazava banha e sangue. O tiro fatal fora logo ao lado do coração, rompendo a ossada do gordo com rapidez e violência. O peito de Billy estava agora completamente desfigurado pelo estrago causado por uma bala de calibre 45 que lhe tirou o medo, a vida e todos os sonhos já sonhados e aqueles que ainda o seriam. Não importava mais que hora o relógio da torre marcava, pois o fim estava próximo.”





La sonata per domani

14 06 2012

O movimento dos corpos era irregular. Tão irregular quanto a linha-contínua da vida – que de reta nada tem. E tão extensa quanto as centenas de minutos e quilômetros que agora os distanciavam. Distância e tempo que se dobravam e desdobravam pelas épocas que haviam passado e que passavam agora e que ainda passariam. Era uma dança tão singela, delicada e algumas vezes bruta que a vida os impunha. Ele insistia em acreditar no amanhã, de uma forma que nunca o fizera dantes; ela estava reaprendendo a acreditar – principalmente pelos fatos que a vida lhe apresentava. Tão diferentes, tão distantes, tão próximos. O sentimento que surgira natural e surpreendentemente poderia lhes ser o calcanhar de Aquiles. No entanto, os fortalecia, quebrando qualquer lógica ou razão. A linha-contínua de cada um insistia em transpassar a do outro. Era mais forte que qualquer intenção, que qualquer desejo. Sabiam que este inusitado encontro tinha data pra terminar. Tempo, tudo parece questão de tempo. É e também não o é. Porque mais importante que os pontos extremos destas linhas – e o tempo que os separa – era este entremeio, esta viagem eterna. E que, neste momento, está numa espécie de consonância única. Longe, sorriam e choravam em momentos distintos, mas que também coincidiam de vez em quando. “Tempo bom que não volta”, dizem. Pode até ser, mas estes dois não se importam com isso. Porque tanto já veio e já foi, e a vida permanece. Trilha seu caminho por entre momentos iluminados e outros mais sombrios. E este era o momento de olhar pra cima e encarar a luz, mesmo que num céu encoberto de nuvens. De água, de incerteza. Porque a luz está nos olhos de quem vê. E eles a viam.





Eu já não sei se sei de nada ou quase nada

21 05 2012

Não há tratado final sobre ela. Tampouco pode ser compreendida em sua totalidade. Vivemos como meros passageiros de um trem com janelas diminutas, que sentem o vento entrar pelas frestas mas que pouco conseguem observar o lado de fora. Lado de fora que, no fim, está dentro de todos nós. Lá no fundo. Há momentos, sim. Momentos que compõem um todo fragmentado, misterioso, fugaz. Que se esvai de nossas mãos e almas a cada instante que passa. Estamos nesta cadeia sem fuga, nos ocupamos com trabalhos medíocres, causas impossíveis, amores intermitentes e paisagens incompletas e vazias e acachapantes. Nos entorpecemos com a rotina nossa de cada dia. Toca o sino, bate o cartão, vai pra casa. A casa que é minha, mas que já foi tua. Que ainda vai ser nossa, que será deles. Eles que são eu e você. “Eu já não sei se sei de tudo ou quase tudo, eu só sei de mim, de nós, de todo mundo”. E, sem saber, vamos embora. Deixamos esta carcaça de carne, osso e algo mais. Muito mais. O epitáfio marca um pedaço de pedra. Não resume nada, apenas engana. E a vida segue. Nunca para, é um traço contínuo. Toca o sino, olho pro tudo e pro nada, chegamos ao nosso destino. Destino do qual nunca saímos. Destino que sou eu, que é você. O sino badala mais uma vez, a porta se abre. A claridade finalmente entra, a paisagem se desvela. O que há de enigmático se resolve. Nos vemos deste lado, algum dia, quem sabe.





Viva São Jorge!

23 04 2012

Protegei-nos dos nossos inimigos, dai-nos força. Salve, Jorge!

 








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