All my pictures are fallin’ from the wall

3 04 2012

Cá estou eu, olhando pra este espelho. Reflete a imagem de um homem que mais parece uma interrogação. Sinto, por cada poro do corpo, uma espécie de vazio e fraqueza. Não sei bem o porquê. Há algo ali, do outro lado. Uma alma grandiosa e, ao mesmo tempo, frágil. Com um corpo sensível a cada toque e arfada. Forte, mesmo assim. Um rosto imponente, longínquo. De pele doce e que se arrepia facilmente. De espírito cicatrizado. Talvez seja eu mesmo, não sei, penso em voz alta. Acendo um cigarro, sempre há de haver um maldito trago de nicotina. Inspiro lenta e suavemente, encaro aquele reflexo nauseabundo. Eu fugi, digo. Eu também, a imagem responde. Tudo é tão difícil, não é mesmo? Tudo arranha, tudo marca, o passado que não passa e o futuro que não chega. As palavras que se transformam em névoa nesta sua madrugada gélida, nas minhas manhãs ensolaradas e quentes demais pra tanto sono e cansaço, pra tanta estafa, pra tanta pergunta e pouca resposta. Aprendi com o passar do tempo que o silêncio comunica, ah, e como. Há momentos em que só ele pode dizer algo, o resto está impossibilitado. A falta de inspiração, a ausência de coragem e palavras e vírgulas e momentos intensos contigo comigo conosco. Eu sei, já disse que a vida é cíclica, mas saber disso não ajuda em nada quando você está por baixo da roda. Com o coração esmagado, triturado e, ao mesmo tempo, forte. Batendo. Confuso, feito boa parte destes pensamentos que me assombram. Te assombram? Talvez. Seu silêncio me comunica algo que não entendo, mas sei que diz algo. É possível que nunca o entenda. Que nunca te entenda. Que, na verdade, esta conversa seja comigo, não com você. Uma conversa que é um monólogo, e nunca vai ser nada mais que isso. Minha voz ecoa, não há resposta. Ouço a brasa falecer no cinzeiro. A voz emudece, a guitarra começa a chorar. Sozinha.





Devaneios de um andarilho qualquer

18 03 2012

Andar a esmo em sua nova cidade é uma prática quase que natural. Seja para estabelecer raízes ou mesmo conhecer o ambiente, a maioria faz isso. Não sei se é uma característica positiva ou negativa (se assim pudéssemos classificar as coisas compreendidas entre o céu e a terra, diriam), mas sou observador. E, por isso, gosto de andar só – em geral, aprecio e luto por esta individualidade. Caminhava pela orla, o dia estava um pouco ensolarado e com nuvens esparramadas pelo céu. A brisa refresca, as ondas batem na areia e nas pedras gigantescas da encosta. Este movimento cíclico, quase hipnótico, limpa a mente. A água salgada e suja acaba tirando tantas preocupações, faz abstrair aspectos do dia-a-dia sufocante que vem por aí. Que já chegou, que está comigo desde sempre. As pessoas tiram fotos daquela paisagem deslumbrante, enquanto eu as tiro apenas mentalmente. Parece que sou, de certa forma, englobado por aquele lugar maravilhoso. Passa a vontade de beber, de comer, de fumar, de pensar. O tempo congela, mas não para. A vida prossegue, nova. Novos problemas, novas alegrias, novos afazeres, prazeres, surpresas. Continuo. Igual, mas sensivelmente diferente. Olho ao redor, para o céu que ainda verei tantas vezes de forma similar e outras de modo tão diferente e tudo tão diferente. Observo. Sorrio.





Um novo dia chegou

27 02 2012

Meus caros, sei que não interessa a todos, mas como meu blog é, de certa forma, uma extensão de minha mente, sentimentos, angústias e alegrias, me sinto no dever de escrever isto. Na noite de hoje embarco, finalmente, numa jornada completamente nova em minha vida. A partir de agora saio deste reduto escondido nos confins interioranos de São Paulo para ir à Niterói, cidade onde farei meu mestrado pela UFF. O ano passado, como alguns puderam acompanhar por aqui, foi sabático. Relações novas surgiram, as velhas foram sedimentadas pelas camadas de amor dor tristeza e esperança que se renovaram, tenho um novo mundo à frente. Com isso, por algum tempo as postagens serão mais esparsas por aqui – tenho alguns textos a colocar em dia, tanto sobre cinema como sobre quadrinhos e outros delírios quaisquer. Tal como tudo na vida, cada coisa a seu tempo. Obrigado a todos os velhos combatentes que aqui permanecem, que torcem por mim, que me fazem o que sou a cada dia. Os deixarei a par das (inúmeras) novidades boas que virão, e das ruins também, muito provavelmente. E que venham novos tempos, lugares, pessoas, conhecimentos – sem esquecer de todos que me são tão importantes, basilares, maravilhosos. Hasta mañana, compañeros.





Denominador Comum (com Gus Morais)

16 02 2012

Pessoal, depois de um curto (mas, na verdade, bem longo) período em conversas, esboços e ideias com o grande amigo Gus Morais (que publica, quinzenalmente, sua tira ‘Bytes de Memória’ na Folha de S. Paulo), finalmente nossa primeira HQ vê a luz do dia. Os desenhos são por conta de Gus, o texto é por minha conta, e o roteiro, planejamento e rumos da historia foram feitos conjuntamente. Esta, posso garantir, não será nossa única colaboração. Espero que gostem!

 





In restless dreams I walked alone

14 02 2012

Somos complicados por natureza. Sejamos jovens ou velhos, estamos inundados em nossos próprios mares de agonias, tristezas, problemas, traumas, inseguranças e afins. Fadados a carregar nossos fardos vida afora. Escrevo porque sinto que, quiçá, ameniza-me as dores. As interrogações que nunca se transformam em pontos. Mas, no fim, tudo se trata de um grande engano. Devo estar me ludibriando ao escrever estas palavras sinceras demais e achar que quaisquer questões possam ser apaziguadas com vírgulas acentos músicas códigos linguagens ou algo que os valha. Mas escrevo, não penso. Regurgito palavras, sussurros, confidências. As enumero, lhes dou valor e intensidade suprimindo vírgulas e pontos. Nosso destino final é prosseguir esta auto-enganação, talvez. Perguntar-se e escrever. Achar que existem respostas. O que existe é apenas esta espessa e infinita cortina de fumaça que meu cigarro molda madrugada adentro. Em camas solitárias ou bem acompanhadas, tanto faz. É por conta desta questão recorrente da utilidade de todas estas palavras que admiro com ainda mais intensidade coisas completas em si mesmas. Esta fascinação pelas imagens, pelos detalhes, pelos erros, pelos momentos. Devia falar menos. Contemplar. É hora de silêncio.





Vida e morte de um pseudo ser humano

8 02 2012

Seus filtros sépia para fotos – sempre tiradas em quartos sufocantes, meticulosamente desarrumados, ou à luz de sóis escaldantes. Esta saudação eterna e nada etérea de um passado que não lhes pertence. Estas explosões de cores cintilantes que nada pretendem dizer, que nada transmitem, que nada significam. Citações poéticas baratas ao som de acordes de Chico Buarque. Não és nada se não conheces de cabo a rabo a maldita filmografia de algum polaco qualquer dos anos 30, se não tiveste lido os despautérios e teses absurdas daquele uruguaio esquerdista, se não cortas seus próprios cabelos em frente ao espelho com uma tesoura pouco afiada, se tuas roupas não são fruto de alguma viagem ao fundo do brechó, se não amas em francês. Vivem num mundo tão vazio quanto o nosso. Não aceitam isso. Adoram flores, precisam entupir suas “realidades” com girassóis, lírios, violetas e rosas – amarelas ou brancas, nunca vermelhas. De vermelho basta o batom: vívido, ofuscante, extravagante. Pensam que podem colorir algo naturalmente incolor. Gostam de apregoar aos quatro ventos e aos sete mares que vivem, ah, como vivem! Não se apegam, “aproveitam” cada minuto como se fosse o derradeiro, carpe diem ou noctem tanto faz o que importa é que querem nos lecionar como a vida deve ser aproveitada, regada a álcool vinho gim ou algo que os valha. São (in)dependentes, escondem suas emoções das plebes. Choram lágrimas secas, sussurram segredos não-velados, não perdem as poses. Tudo se resolve com uma borrifada de perfume, um maço de cigarros com baixo teor de nicotina e alcatrão e um drinque com nome repleto de estrangeirismos. Me cansam.





I’m so glad that you came here

4 02 2012

O sol se põe gradativamente ao horizonte. Mesmo prestes a morrer, ainda tenho que deixar meus olhos semicerrados para fitá-lo. Uma brisa lufa por nossos corpos, agita um pouco seus longos cabelos castanhos. Estamos sentados em rochas, devem ser antiqüíssimas, muitos outros ali também se sentaram, tiveram, talvez, a mesma visão que partilhamos neste momento. Mas, por mais que as condições tenham sido as mesmas, aquele momento é único, é nosso. É um conjunto de fatos que se une e se mantém congelado e imutável no tempo-espaço. Você chega mais perto de mim, eu te abraço. Você está com sua máquina recém-comprada, guardando em imagens aqueles momentos que não podem ser guardados. Eu peço a câmera emprestada, você a passa pra mim. Talvez seu olhar seja mais apurado que o meu, você tinha tirado tantas fotos e eu só fico olhando o ambiente pelo visor da máquina. Você me pergunta se eu não vou tirar nenhuma foto, eu peço pra você esperar só um pouquinho. Então, um pouco à nordeste eu encontro o ponto perfeito. Miro, capturo. Ficou bonita a foto, né? Sim, ficou linda, você me responde. Você me beija, e depois eu te beijo os ombros. Acendo um cigarro, nos levantamos e vamos embora. Mas meu olhar se esvai do meu corpo, e fica estático ali, naquele ponto específico que fotografei. Sinto o vento, ouço as vozes, mas não tiro meus olhos daquela pontinha de céu que encontra a terra e engolfinha o Sol. Isto tudo é um sonho, claro. Um dos bons.








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