Mês da Animação no HQ Subversiva!

5 06 2013

É, meus caros, junho já começou e é com muito orgulho que anuncio o Mês da Animação aqui no HQSub! Não, não é aniversário do blog (ainda falta um pouquinho pra agosto), nem aniversário de nenhuma animação específica que eu ache relevante num cenário mais amplo; é um mês especial porque o blog é meu e eu decidi! Brincadeiras de lado, neste mês buscarei privilegiar obras audiovisuais animadas das mais variadas origens e temáticas – talvez com algum favorecimento a animações japonesas, devo confessar. Neste mês teremos, finalmente, o nosso especial Hayao Miyazaki, com uma filmografia destrinchada por diversos colaboradores (incluindo textos meus, diferente do que acontecera até agora em nossos outros especiais), além de outras críticas, vídeos e imagens que referenciem obras obrigatórias (a meu ver) pra quem quer saber mais sobre esse gênero cinematográfico. É isso! Não percam, fiquem ligados aqui no blog e em nossa página no Facebook, leiam, comentem e, acima de tudo, (re)vejam tudo que puderem!

ghost

Anúncios




Amigos, muito obrigado

10 08 2012

Quem me tem no facebook sabe que já agradeci bastante, mas aqui vem o “obrigado” oficial. Só posso agradecer imensamente aos amigos Leopoldo, Caraça, Ronald, Vargas e Osvaldera pelo tempo dispensado na fabricação dos textos, na paciência durante meus momentos de cobrança pelos textos e pelo apoio dado na divulgação deste especial. Devemos chegar a mais de mil visitantes diferentes ainda hoje, durante todo este Especial Friedkin aqui no HQSub. Pensei nesta semana, em primeiro lugar, como forma de prolongar a filosofia do nosso querido Dia da Fúria para outro endereço; por mais que não tenhamos dissecado toda a carreira de Friedkin, primei por filmes importantes e nem sempre tão reconhecidos de Friedkin. Além disso, também me pareceu muito legal e honroso abrigar textos destes amigos, que nem sempre escrevem regularmente na blogosfera – me parece muito justo e legal fazer com que meus leitores conheçam estas pessoas, seus textos e também seus blogs. Ao fim desta semana, obtive muitas respostas legais na fanpage do HQSub no facebook, e ideias e planos de outros especiais da mesma natureza em outros endereços; surgiram nomes de outros diretores, outros interessados em escrever… enfim, parece que a semente pode dar frutos em breve. Espero que sim, porque todo este trabalho valeu muito a pena. Obrigado a todos, e voltemos à programação normal aqui!

PS: Claro que quando eu conseguir colocar as mãos em Killer Joe, novo do grande Friedkin, escreverei por aqui. Esta cereja do bolo eu guardei pra mim 😉





Caçado (2003)

10 08 2012

Por Leandro César Caraça, do Dia da Fúria

Em Caçado, de 2003, Aaron Hallam (Benicio Del Toro) é uma máquina de matar descontrolada, um militar super-treinado que surta durante uma operação na Guerra da Bósnia e desaparece. Semanas depois, na fronteira dos EUA com o Canadá ele mata dois homens que estavam caçando na floresta. Para capturar Aaron, o FBI pede ajuda a L.T. Bonham (Tommy Lee Jones), aposentado instrutor militar que ensinou a Aaron tudo o que ele sabe. O que se seguirá a partir de então, é um vigoroso jogo de caça e presa entre dois homens preparados para matar. Quantos cadáveres ficarão pelo caminho até Aaron ser capturado ou morto?

Após “Regras do Jogo” (2000), Friedkin volta a trabalhar com Tommy Lee Jones e conduz com precisão e sobriedade um dos mais puros filmes de ação do começo do milênio. Pode-se dizer, erroneamente, que Jones está repetindo o mesmo tipo de papel que se acostumou a fazer depois de “O Fugitivo” (1993) e que tudo não passa de uma cópia de “Rambo – Programado Para Matar”. Ainda que tais comparações sejam pertinentes, “Caçado” tem uma identidade própria, coisa que Friedkin consegue imprimir desde o início. Del Toro  é claramente uma ameaça para todos que se aproximam dele e fica claro que somente sua morte colocará um ponto final nisso. Jones por sua vez, é um homem que se ausentou da sociedade, vivendo isolado numa cabana nas florestas do Canadá. Só aceita a missão porque sabe o quão letal é Aaron. Precisa então matar o melhor aluno que já teve. Em certo momento perto do fim, é revelado que Bonham deixou de manter contato com Aaron, o que pode ter ajudado na descida à loucura deste.

Sem muito traquejo e com capacidades de rastreamento dignas de um animal, Jones é retratado como um cruzamento entre Charles Bronson e Wolverine. Seus embates com Del Toro são o ponto máximo de um filme que não perde tempo com amenidades. Não existe, por exemplo, a obrigatória trama amorosa entre Jones e a agente do FBI interpretada por Connie Nielsen. Sem firulas e repleto de ação, “Caçado” é o melhor filme de Friedkin desde “Viver e Morrer em Los Angeles”.

“Caçado” – Bom





Viver e Morrer em Los Angeles (1985)

9 08 2012

Por Ronald Perrone, do Dementia 13

“Buddy, you’re in the wrong place at the wrong time.”

Richard Chance (William Petersen) possui algumas habituais características do policial controverso cinematográfico: é daqueles que seguem suas próprias regras, destemido e não treme na hora encarar a bandidagem. Aparentemente, é o homem da lei perfeito para os amantes do gênero policial. No entanto, as semelhanças com um Dirty Harry ou Shaft param por aqui. Analisando as atitudes do sujeito ao longo do Viver e Morrer em LA, de 1985, percebe-se com muita sutileza que, no fim das contas, ele não passa de um agente incompetente, impulsivo e arrogante, agindo pelo instinto de vingança, que termina, perdoem meu francês, realmente fodido!

Não é a primeira vez que William Friedkin se arrisca dessa maneira. Chance não é o único personagem “Friedkiano” que tem suas limitações e imperfeições colocadas em evidência. Também não é a toa que estamos falando de um dos diretores mais ousados do cinema americano, um autêntico provocador. Talento o sujeito sempre teve de sobra, mas subverter deve ser uma de suas principais diversões nessa brincadeira de fazer cinema e parece não dar a mínima para o que o grande público acha.

Isso fica claro pela maneira como arranja soluções questionáveis para os seus filmes: os vários finais abertos, pessimistas e reflexivos, sem contar as preferências por temas polêmicos e personagens ambíguos que nem sempre são bem vistos aos olhos do espectador comum. Deste modo, Viver e Morrer em Los Angeles segue a máxima shakespeariana na qual “consisão é a alma do espírito”, ou, em outras palavras, o filme é um dos grandes definidores do cinema de Friedkin.

“Guess what? Uncle Sam don’t give a shit about your expenses. You want bread, fuck a baker.”

O filme começa com o tal agente, Richard Chance, prestando serviço de segurança ao Presidente dos estados Unidos em uma conferência em Los Angeles. Durante a ocasião, um homem-bomba islâmico tenta “encontrar” suas setenta e duas virgens lhe esperando no paraíso, levando o presidente americano junto. Não consegue, graças a Chance e seu parceiro. Os dois se sentam no terraço e pensam sobre o que acabou de acontecer. Então dizem algo como, “Vamos beber!” e logo inicia uma elegante montagem, com uma música estilosa, mostrando várias imagens que representam a Los Angeles do filme.

Chance, a princípio, é mostrado como o policial durão que se espera. Quando seu parceiro é morto a tiros, prestes a se aposentar, sua truculência de fachada parece ficar mais intensa. Não demora muito para começar a perder a cabeça, infringir leis e fazer o que for preciso para se vingar. Geralmente, no lugar comum dos filmes do gênero, o policial que age dessa maneira é sempre visto como um sujeito cool, o policial casca grossa que queremos ser quando crescer. No caso de Chance, Friedkin lhe foi muito cruel…

A cada passo adiante para resolver o caso, ficamos convencidos de que o protagonista é um idiota cujo distintivo lhe dá direito de se achar acima da lei, de quebrar todos os protocolos, de ser um prepotente chantagista com todo mundo pelas ruas de Los Angeles, apesar das boas intenções… Tenho a impressão de que o próprio Chance nem tenha consciência da espécie de indivíduo que ele se torna. E é exatamente esse tipo de ambiguidade que gera o tour de force que torna o personagem tão singular, tão especial, tão badass! E Petersen retrata tudo isso com uma naturalidade absurda!

Mas o que seria de Chance sem um vilão a sua altura? É aí que entra em cena um jovem Willem Dafoe, encarnando o artista que usa de seu talento para falsificar dinheiro, além de ser um assassino sangue frio – responsável pela morte do parceiro do protagonista. Não me surpreende a carreira dele ter decolado após Viver e Morrer em Los Angeles, porque seu desempenho aqui é algo magnífico, aquele olhar expressivo de psicopata nunca esteve tão assustador.

“- Why are you chasing me?
– 
I don’t know, why you running?
– Cause you’re chasing me.”

Viver e Morrer em Los Angeles não é exatamente focado na ação. A sua essência segue a estrutura de um thriller policial e, obviamente, não poderiam faltar algumas sequências mais movimentadas e tensas, como tiroteios e perseguições. Mas Friedkin as intensifica com uma boa dose de violência e realismo. As mortes ganham um peso muito grande dessa maneira – como é o caso do assassinato do parceiro.

Mas a grande sequência de ação do filme, a cereja do bolo de Viver e Morrer em Los Angeles, como acontece em Operação França, é, sem dúvida alguma, a longa perseguição de carros em alta velocidade no meio do tráfego, das áreas industriais, linhas de trem, e até na contramão de uma freeway! Um verdadeiro espetáculo! Friedkin se especializou nesse tipo de cena, nesse bailado automobilístico exagerado e belo. Chega a ser poético. E aqui a montagem possui uma baita energia acentuada pela carga dramática que a cena carrega. É a maior aula de cinema do professor Bill Friedkin para quem ainda não sabe o que é a porra da montagem! Algo que os aspirantes a cineastas de hoje não fazem idéia do que seja!

E o que é um clássico dos anos oitenta sem uma trilha sonora oitentista, daquelas bem datadas?! Wang Chung fornece a trilha sonora, além da música tema e todos os sintetizadores que compõem o clima. É claro que o fato das músicas serem tão datadas pode proporcionar um obstáculo para o espectador que se incomoda com esse tipo de detalhe. Como sou um amante da música pop brega e datada dos anos 80, acho que não poderiam ter escolhido um som melhor.

“I’m getting too old for this shit.”

Quando o editor deste blog me convidou para escrever sobre Viver e Morrer em Los Angeles, eu entrei numa enrascada. A princípio, achei que seria um prazer escrever sobre um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Por outro lado, este mesmo motivo me deixa sempre descorfortável. Escrever sobre algo que tanto admiro é um trabalho árduo. Mas acho que saiu algo… [Nota do editor: tá sensacional!]

É uma pena que Friedkin não tenha o devido respeito por Viver e Morrer em Los Angeles. Quando o diretor é lembrado (algo raro atualmente), sempre citam O Exorcista e Operação França. Mas é este aqui que me estimula, que me faz sentir necessidade revê-lo. É a minha droga. Não consigo passar muito tempo sem revisitar o universo criado por Friedkin, a Los Angeles desordenada e ensolarada, os personagens complexos… mesmo tendo consciência dos destinos trágicos e chocantes que o roteiro cuidadosamente prepara. E a edição nacional do DVD, cheio de extras e o final alternativo ridículo, quebra um bom galho.

“Viver e Morrer em Los Angeles” – Excelente





Parceiros da Noite (1980)

8 08 2012

Por Daniel Vargas, do Nascido em 29 de Março

É difícil falar de Parceiros da Noite sem fazer primeiro um parâmetro entre as carreiras de Pacino e Friedkin na época. Friedkin tinha ido do céu ao inferno com sua carreira nos anos 70 com uma velocidade monstruosa: depois de ter enlouquecido com suas obras-primas “Operação França” e “Exorcista”, caiu direto no fosso junto com o fiasco de público que foi o seu remake de “Salário do Medo”, “Sorcerer“, mostrando que Hollywood já era um lugar cruel e impiedoso até mesmo com seus maiores talentos e meninos de ouro da geração “Easy Riders-Raging Bulls“. Já Pacino ainda era o rei do pedaço com uma carreira semi-perfeita nos anos 70, que, excluindo “Bobby Deerfeld”, era sucesso estrondoso se não de público, de crítica, e em sua grande maioria, os dois. O homem – que junto com nomes como Robert De Niro, Jack Nicholson, Dustin Hoffman e Gene Hackman – fazia clássicos instantâneos e com menos de 40 anos de idade já parecia ter seu lugar assegurado na grande galeria dos grandes mitos do cinema.

Um sujeito que não precisava provar mais nada há ninguém, certo? Bem, exceto que aparentemente ele achou que sim. Há quem tenha acusado Al de ter fraquejado depois de ter conhecido seu primeiro e tardio fracasso com o filme do Pollack, que acabou fazendo-o recusar duas propostas de projetos ousados – sendo a primeira do clássico definitivo sobre a guerra do Vietnã do Coppola, “Apocalypse Now“, e o outro, um épico sobre a mesma guerra no papel do veterano real de combate Ron Kovic no projeto “Nascido em 4 de Julho” – para aceitar o seguro papel do advogado porta-de-cadeia no ótimo, mas talvez demasiadamente acadêmico, “…Justiça Para Todos”, de Norman Jewison, que acabou lhe rendendo uma (segura) indicação ao Oscar.

Com Friedkin na merda, como se nunca tivesse existido e desacreditado, e Pacino querendo se provar com algum projeto ousado, os dois uniram forças e entraram de cabeça em um estranho projeto, que normalmente viraria material para um filme B de William Lustig ou mesmo De Palma, que tinha se interessado em dirigir antes do Friedkin colocar suas mãos nele: o submundo homo-erótico.

É estranho, mas “Parceiros da Noite” parece ser tudo que seus admiradores e detratores dizem ser. Uma visão do mundo homossexual homofóbica? Um thriller que compara levar no traseiro com uma sentença de morte? Uma metáfora em que todos que se deixam envolver por esse mundo, acabam “contaminados” para sempre por ele? (AIDS?) Em primeira mão, parece que Friedkin pegou o projeto para pagar contas, pois filmes exploitation na época eram populares e chamavam o público. Mas, conhecendo o Friedkin e seu temperamento, nada disso faz sentido. Não só por sua temática arriscada, mas como por seu acabamento.

A verdade é que poucas vezes Friedkin foi tão ousado quanto nesse filme. Sua obsessão pelo lado obscuro do ser humano, o cheiro do asfalto das ruas imundas das grandes metrópoles, a violência seca e generalizada não são novidade em sua carreira. Nem mesmo o mundo gay, já relatado em “Os Rapazes da Banda”. O filme é inspirado em uma série de assassinatos homossexuais que aconteceram de fato em Nova York entre 1962 a 1979, e antes mesmo da sua estréia já gerava polêmica e censura dentro e fora das comunidades gays. Friedkin nunca quis parecer arrumar tanta confusão como quando decidiu fazer esse filme. Poucos filmes mainstream foram tão longe quanto esse, seja em temática, seja em visual. É como se Friedkin estivesse dizendo: “Foda-se, Hollywood. Vocês não me querem porque sou melhor que vocês”. É o sujeito à beira do penhasco, fazendo piruetas.

A históra é o que? Al Pacino faz um policialzinho meia tigela chamado Steve Burns que recebe do seu superior (Paul Sorvino) a arriscada tarefa de se infiltrar no submundo gay à procura de um assassino em série que anda caçando amantes em inferninhos homossexuais – apenas para esquartejá-los depois e jogar seus restos no Hudson River. E suas vítimas parecem ser quase sempre o biotipo do próprio Burns. A promessa de uma promoção e de uma vida melhor levam-no a aceitar a tarefa, que a princípio ele parece levar com a tranqüilidade de qualquer outro serviço que ele já fez, que faz o público temer pela ingenuidade do personagem que parece não ter idéia da enrascada em que está se metendo (ou talvez faça?)

Steve tem uma namorada (uma bem jovem Karen Allen, lembrando a Alice Braga), que parece, hora sim, hora não, viver com ele no mesmo apartamento. Durante sua missão secreta, porém, ele parece deixá-la totalmente no escuro e tenta vê-la o mínimo possível. Para sua própria segurança, ele diz. Enquanto isso, ele convive mais, em seu novo apartamento alugado em Greenwich Village, com o seu vizinho gay (Don Scardino) desenvolvendo um relacionamento de amizade ao mesmo tempo que vai descobrindo informações que poderão ajudar a desvendar o caso apenas jogando papo furado com seu novo amigo.

Mas são as cenas que Pacino precisa encarar os clubes-gays-hardcore os pontos altos do filme. As cenas eróticas nesses lugares são tão sensuais quanto os personagens do John Waters. Seria mesmo uma visão do inferno pertubada de um heterossexual ou realmente existem lugares assim? É o que o filme parece se questionar o tempo todo, ao chocar o público mostrando o todo poderoso Michael Corleone passando entre homens de colantes pretos com apetrechos sadomasoquistas, bundas peludas de fora e boquetes sendo praticados em bastões e cassetetes. A sensação é que Pacino nunca esteve tão em perigo, nem mesmo sentado na mesa do restaurante junto com Sollozzo e  Mccluskey em Chefão, ou dentro do banco rodeado de policiais em “Um Dia de Cão”, ou enfrentando sozinho centenas de homens armados do Sosa em “Scarface” ou sendo vítima de conspiração por todos seus colegas de distrito junto, em “Serpico”. Nada parece mais ameaçador quando um sujeito que, ao enxergá-lo parado no clube se aproxima e pergunta “se ele gosta de esportes aqúaticos”, e se enfurece quando ouve uma resposta negativa, o alertando a não usar “um tal lenço” pra fora do bolso se o negócio dele é apenas “olhar”. Aliás, a cena que Pacino pergunta o significado dos lenços para o balconista Powers Boothe é impagável. Mas parece mesmo que nada parece ser mais horripilante que ver um homem esfregando a mão no peito do Pacino ou o mesmo amarrado na cama, prester a ser esfaqueado (ou enrabado, o que o filme parece não se decidir o que parece ser pior)

Nada em “Parceiros da Noite” é comum ou entediante. Entre a edição dinâmica do Bud Smith, ou na trilha atmosférica do Jack Nitzsche, tem sempre alguma coisa acontecendo e se alterando. Seja o rumo do caso, a personalidade do Pacino (que vai ficando cada vez mais e mais ambígua) e até mesmo a identidade do assassino, cuja sensação é que está sendo interpretado por atores diferentes a cada cena! É como se o Friedkin quisesse confundir ou nos dizer que QUEM é o assassino, é o que menos importa. O que importa é como pode existir aqueles mundos paralelos tão grotescos e imorais? No entanto, o filme também parece mostrar que aqueles homens estão lá porque querem. Eles gostam do que fazem e para a maioria nem é um assunto delicado da vida deles. O personagem principal parece também não ser nem um pouco homofóbico, tanto por aceitar o caso, quanto por sua relação com seu amigo homossexual que parecem desenvolver um relacionamento amigável e até íntimo. O personagem não parece julgar, em qualquer momento do filme, a natureza do caso em que está ou dos personagens que ele precisa cruz, apenas se preocupa com sua segurança com o possível encontro com o assassino. Por isso mesmo é difícil saber se existe mesmo uma razão definitiva sobre quem o acusa de ser homofóbico ou não. Até que ponto é homofobia ou pura realidade documentada?

O que fica de fato é a ousadia, não só do Pacino, um astro já consagrado, se envolver em um projeto tão polêmico, que nas costas de alguém menos talentoso, iria destruir sua carreira, como do Friedkin – que realiza aqui, na minha opinião, sem dúvida nenhuma um dos seus melhores trabalhos (lado a lado a títulos como “Operação França” e “Viver e Morrer em L.A”) injustamente taxado de “maldito” e lamentavelmente fracassando novamente nas bilheterias. Mas, no fundo, era o único destino que ele poderia ter de fato. Afinal de contas, é um perfeito caso de filme que estuda “a procura da identidade” e ele mesmo não parece ter uma. Se vende como um thriller policial? Mas é só isso mesmo? Certamente não é um “quem matou?”. É um neo-noir psicológico? É um drama existencialista? O que Friedkin quer dizer com a última cena do Pacino se olhando para o espelho e por fim, olhando para a câmera-público? Será que nós sabemos quem somos de verdade para julgarmos os outros? Será que sabemos de fato o que somos capazes de fazer ou não? Quais são nossos limites morais? A homofobia está nos olhos dos outros? São perguntas que fazem o público se questionar e talvez até mesmo se irritar porque não obtém uma resposta fácil. Mas resposta fácil é tudo que “Parceiros da Noite” nunca prometeu em nenhum momento.

PS: Interessante ver o sempre marcante Joe Spinell no começo do filme como o patrulheiro asqueroso, homossexual enrustido, que reclama para seu parceiro (Mike Starr) da sua mulher tê-lo deixado e levado sua filha junto para a Flórida. Na vida real, era exatamente o que tinha acontecido com ele semanas antes das filmagens. Seu personagem que extorque travestis em troca de favores sexuais parece um rascunho do seu talvez mais célebre personagem em “O Maníaco”, do já citado William Lustig. Outra coisa interessante em Parceiros é sua trilha sonora, que ficou bem caracterizada no filme. Músicas como “Lump” do Mutiny, “It’s So Easy” do Willy DeVille, “Shakedown” do Rough Trade são marca registrada do filme.

“Parceiros da Noite” – Excelente





Sorcerer (1977)

7 08 2012

Por Osvaldo Neto, do Vá e Veja

É preciso muita coragem e determinação para sair do conforto de sua vida no meio urbano, viajar para a França, México, Israel e se jogar no meio do mato da República Dominicana por meses para fazer um filme. E foi isso que William Friedkin e boa parte de sua equipe fizeram nas filmagens de Sorcerer, de 1977 – sua versão para “O Salário do Medo” de Georges Annaud, um clássico da literatura francesa que também gerou a obra-prima de mesmo título para os cinemas, dirigida por Henri-Georges Clouzot.

O filme é um verdadeiro espetáculo de cinema que teve o azar de ter sido lançado simultaneamente com o arrasa quarteirões de 1977: “Guerra nas Estrelas”. Graças a tamanho equívoco por parte da Paramount, o filme de Friedkin – que então vinha do sucesso de “Operação França” e “O Exorcista” – arrecadou o montante de 12 dos 22 milhões de dólares de seu orçamento. Como se não bastasse o fracasso de público, a crítica também não foi muito gentil com o filme no período e, por pouco, isso não custou a carreira de Friedkin. Seus dois próximos longas seriam “Um Golpe Muito Louco” (The Brink’s Job) e “Uma Tacada da Pesada” (Deal of the Century), comédias de boa reputação, mas que talvez representem uma queda no que o realizador poderia nos oferecer se o fracasso de Sorcerer não tivesse acontecido. Foi com o lançamento de “Parceiros da Noite” (Cruising) e “Viver e Morrer em Los Angeles” (To Live and Die in LA) que ele voltaria a impressionar espectadores ao redor do mundo.

Sorcerer tem o seu foco em quatro personagens. Nilo (Francisco Rabal) é um matador profissional. O terrorista Kassem (Amidou) viu os seus amigos serem presos e mortos pela polícia após explodirem um banco em Jerusalém. Victor Manzon (Bruno Cremer) é um banqueiro francês que deixou o seu país para escapar de uma acusação de fraude. O ladrão Jackie Scanlon (Roy Scheider) foge da máfia depois de um assalto que deu errado. Nilo, Kassem, Victor e Jackie se encontrarão de exílio num vilarejo ferradíssimo de um fictício país da América Latina, um lugar onde eles não possuem a menor chance de sair.  Trata-se do verdadeiro Inferno na Terra: a corrupção toma conta do poder público, a miséria é algo rotineiro e os policiais mais se assemelham a bandidos que homens da lei, sem falar dos frequentes ataques de guerrilheiros populares. Com exceção dos revolucionários… até parece que estamos falando de um país que nós conhecemos muito bem. Enfim, voltando ao filme, é impossível não se perguntar como um ser humano pode viver naquele local, a não ser, claro, que ele tenha a intenção de se esconder do mundo.

A vila inteira depende economicamente de uma petrolífera americana. Um de seus poços explode e o fogo violento que emana dele apenas poderá ser apagado com a explosão de uma carga de dinamites. O porém é que essa carga foi armazenada de forma tão inadequada que está vazando nitroglicerina das bananas de dinamite e elas podem explodir a qualquer choque ou impacto. A empresa promete $10.000 para cada um dos quatro motoristas que irão transportar as dinamites em dois caminhões por um trajeto repleto de obstáculos nas selvas do país. Até mesmo o vento forte pode fazer com que as cargas se explodam. E serão os nossos protagonistas que não perderão essa chance de ir embora daquele lugar, mesmo que ela praticamente seja uma maneira imbecil de cometer suicídio.

As duas horas de duração do longa são muito bem utilizadas pelo diretor. Em nenhum momento temos um filme desinteressante, apesar de Friedkin contar essa história sem a menor pressa. Parte dos primeiros 30 minutos do longa são dedicados apenas para apresentar os quatro personagens principais. Um detalhe interessante é que Friedkin deixa por último a história que causaria mais identificação com o público americano, a de Jackie. Também é a única onde os personagens falam em inglês e as legendas não surgem em cena. A meia hora seguinte é focada no encontro entre eles e os preparativos para a insólita jornada. Os próximos 60 minutos serão marcados por um nível tão extremo de tensão que não seria surpreendente se o espectador acabasse roendo todas as unhas da mão (e dos pés também). O grupo Tangerine Dream – em sua estreia no cinema – apenas reforça o suspense alcançado por Friedkin com sua inesquecível trilha sonora nas impressionantes cenas que dominam a metade do filme. A cena da travessia da ponte é de deixar neguinho com o c* na mão.

Outro aspecto que complicou bastante o lançamento comercial de Sorcerer é o título: ele simplesmente não deixa claro sobre o que raios o filme deve ser. Como uma história sobre quatro homens que estão fugindo de seu passado em um país ferradíssimo do Terceiro Mundo e aceitam participar de um trabalho que pode custar as suas vidas tem este nome? É apenas no decorrer do longa que o espectador de olhar mais atento pode notar que o título pega emprestado o nome de um dos dois caminhões que levam os explosivos. Mas não deixe que esse título ruim atrapalhe a sua curiosidade em assistir ao melhor filme deste grande contador de histórias chamado William Friedkin. Sim, este seu modesto escriba acredita que o cinema poucas vezes atingiu a excelência de Sorcerer e ele tem certeza que você se juntará a ele no coro dos defensores deste grande filme que ainda não recebeu o devido reconhecimento. Sem falar que ele também apresenta um dos maiores desempenhos do genial Roy Scheider. Não são poucos os momentos em que Jackie parece ser o desespero personificado no corpo de um homem.

O DVD oficial da Warner é apresentado em fullscreen (4:3), não respeitando os enquadramentos da fotografia original. Infelizmente, esta é a única cópia de Sorcerer em circulação.

Sorcerer” – Excelente





O Exorcista (1973)

6 08 2012

Por Leopoldo Tauffenbach, do Cine Demência

Tome qualquer lista – qualquer uma mesmo – de melhores filmes feita depois de 1974. Salvo casos restritivos, como uma lista dos melhores dramas de época ou os melhores romances, é bem provável que você encontre O Exorcista de William Friedkin desfilando entre as colocações. Eu mesmo, antes de ter idade ou competência para acompanhar listas, cresci sob os brados de adultos sobre a suposta excelência do filme. Como apreciador de filmes de horror eu teria – assim que tivesse idade para tal – que assistir a esse filme com o máximo de urgência.

E foi no início da minha adolescência que minha casa recebeu seu primeiro videocassete. Dos inúmeros filmes que eu alugaria com frequência religiosa nas locadoras do bairro, O Exorcista seria, sem dúvida, um dos primeiros. E assim foi. Preparei-me física e espiritualmente para finalmente conferir o filme que apavorara tantos adultos ao meu redor. Mas antes de comentar a experiência, devo deixar claro que O Exorcista não seria meu primeiro filme de terror. Ao contrário, eu já tinha passado por muitos outros clássicos, como Poltergeist, A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13, A Morte do Demônio, sem contar as inúmeras produções da Hammer e aqueles genéricos americanos que hoje são considerados cults. E por isso mesmo que O Exorcista pareceu na época uma grande decepção para quem esperava o filme de terror supremo.

Mesmo decepcionado, nunca desisti do filme, afinal, uma obra tão falada e tão elogiada não poderia ser um fiasco completo como me pareceu então. Seriam necessárias mais algumas revisões para reconhecer que o mundo não estava enganado. Eu era quem estava despreparado para enxergar toda a maestria e excelência do filme de Friedkin. Não convém aqui detalhar cada uma das vezes que assisti ao filme, mas vale dizer que a cada vez o filme ganhava em profundidade e… horror.

Para quem desconhece a trama, tudo começa com um padre realizando uma escavação arqueológica no Iraque. Lá, estranhos eventos parecem cercar o sítio arqueológico e sua própria pessoa. Já nos EUA, uma atriz tem sua vida transtornada pela estranha mudança de comportamento de sua filha Regan, ao mesmo tempo em que um padre da paróquia local começa a questionar sua fé e a própria existência de Deus. Essas três histórias irão se cruzar diante da possibilidade de Regan ser vítima de uma autêntica possessão demoníaca.

De um filme intitulado O Exorcista, pode ser frustrante para alguns – como foi para mim – descobrir que a cena do exorcismo está somente no final do filme, em seus últimos 30 minutos. Mas, no final, não é disso que o filme trata. Se fosse não seria reconhecido até hoje como um dos maiores filmes de terror da história. O filme trata de aspectos muito mais sinistros, como a perda da esperança e a possibilidade de que talvez não exista um Deus. Em um dos momentos mais tensos do filme, no intervalo da sessão de exorcismo, o padre Karras indaga o padre Merrin (interpretado com a maestria habitual de Max Von Sydow), como Deus permite que uma criança possa ser possuída pelo demônio trazendo sofrimento a ela mesma e aos que a rodeiam. E não há quem não fique pensando nisso depois de lançada a questão. Pior que a possibilidade de Deus não existir, seria um Deus que simplesmente não se importa mais com os homens, deixando-os à mercê de todo mal. De qualquer maneira não estamos em vantagem alguma.

Mas o filme não termina de maneira tão trágica. O bem vence o mal, ao menos por enquanto, e nós mortais podemos desfrutar de um pouco de esperança. E para aqueles que esperam um filme à base de sustos e efeitos especiais (o filme possui efeitos especiais excelentes, mas que estão longe de ser a atração principal), fujam de O Exorcista. Este é um filme que fala dos horrores que minam nossas crenças e reduzem nossas esperanças em algo melhor. E não existem monstros de animatronics ou de CG mais terríveis que esses.

Vale lembrar que a versão em circulação em DVD traz cenas adicionais que foram deixadas de fora da versão original. Tendo visto ambas, reconheço que a nova versão pouco acrescenta ao que já existia na versão original. Mas também não chega a atrapalhar, o que já é um ótimo negócio.

“O Exorcista” – Excelente








%d bloggers like this: