Operação França (1971)

20 05 2013

Pessoal, repasso aqui, na íntegra, a minha contribuição para o Especial William Friedkin do nosso amado Dia da Fúria – aliás, façam o favor de não perder, estamos destrinchando a filmografia completa do gênio!

“Podemos afirmar sem medo que Operação França, de 1971, é o primeiro grande filme de William Friedkin. Sem menosprezar suas obras anteriores, devidamente destrinchadas nos textos anteriores pelos colegas daqui, do Dia da Fúria, o filme vencedor de 5 Oscars em 1972 (Melhor Filme, Diretor, Ator Principal [Gene Hackman, com seu dúbio e impulsivo Detetive Jimmy “Popeye” Doyle], Edição e Roteiro Adaptado) ainda mostra hoje, mais de 40 anos depois de seu lançamento, vigor e força incríveis.

Para quem não sabe, o longa remonta a maior apreensão de heroína em solo americano à época: a dupla de investigadores da divisão de Narcóticos da polícia de NY formada por Jimmy Doyle [Hackman] e Buddy Russo [Roy Scheider, afiado] entra em um longo e tenso jogo de gato-e-rato para desmantelar uma rede de tráfico de drogas e depara-se com a tal da Operação França – um esquema internacional, pelo qual heroína era contrabandeada da Turquia para a França, e dali para os Estados Unidos. O foco, claro, é a parte americana desta investigação que, na vida real, também foi desenvolvida pelas forças policiais francesas.

Operação França 1

Friedkin realiza um vigoroso thriller policial, extremamente metódico e pausado nesta moldagem do complexo esquema de contrabando: o diretor focaliza o ponto de vista das forças da lei diante deste complô internacional, reforçando a cada cena as dificuldades e (inúmeras) tentativas frustradas de Doyle e Russo de conseguir achar os responsáveis pela operação. O elo entre franceses e americanos para este envio de heroína, Alain Charnier [Fernando Rey, também muito bem], se torna o alvo dos detetives e, conforme a exibição se desenrola, o cerco sobre o esquema e seus envolvidos começa a apertar.

Um dos principais destaques do longa é a forma como os detetives americanos são retratados: atribuir uma personalidade dúbia, durona e politicamente incorreta; com agressões, abusos de lei e afins “em nome da Justiça” não era necessariamente inédita à época, mas Friedkin enriquece este tipo de abordagem por meio de uma grande atuação de seus principais atores aliada a um jeito enérgico e potente de dispor os acontecimentos que levaram ao desmantelamento do esquema. Neste sentido, Operação França é exemplar, contendo sequências inesquecíveis – dentre as quais, claro, destacamos a perseguição de Popeye a um suspeito do esquema em plena Nova York: o suspeito, que foge primeiro a pé e, em seguida, embrenha-se no metrô, é seguido pelo detetive em um carro, acelerando em meio ao tráfego intenso, causando acidentes, quase atropelando pedestres inocentes e batendo seu carro nas vigas que dão suporte às linhas do metrô. É interessante notar que esta sequência é simbólica para refletirmos sobre a postura dos policiais no caso: o respeito às leis é completamente deixado de lado em favor da próxima pista, do próximo envolvido, da chance de finalmente dar fim à angústia de não conseguir prender os culpados, o abuso de lei é “justificado”. Independentemente disso, Friedkin não parece, a um primeiro olhar, julgar tais práticas, apenas as mostrando, tal como exageros de poder realizados pelos policiais nesta longa investigação.

Operação França 2

Complementando o ponto acima, também poderíamos pensar no cerco final de Operação França como exemplar da situação: por mais que a mercadoria seja apreendida, o enigma ainda não fora resolvido. Assim, vemos Popeye e Russo visivelmente abalados, tensos e irritadiços – e, por que não, confusos? – diante da fuga de alguns dos suspeitos. A droga foi pega, os culpados fogem: “E o nosso esforço, foi plenamente recompensado? Colocamos nossa sanidade em risco para não conseguir colocar nossas mãos no pescoço de cada um dos verdadeiros responsáveis pelo esquema?”. O fato do filme ser ambíguo e não-conclusivo, dá vazão a esta dúvida, não glorifica os policiais e nem se curva aos modos pelos quais eles conseguiram realizar a gigantesca apreensão. Ou seja, Friedkin consegue realizar um impressionante thriller policial que também questiona a si mesmo, de alguma forma, que não exime os envolvidos de uma caracterização complexa e feroz, dúbia e discutível, que não os leva ao que todos esperam em um caso de polícia – que os verdadeiros culpados sejam presos, julgados, punidos, que haja uma verdade por trás de tudo, e que ela possa ser devidamente entendida, explicada. Resumindo: imperdível.

Operação França – Excelente

Anúncios




Pra não perder o hábito: filmes vistos e/ou revistos nos últimos dias

10 09 2012

Olá, pessoal, faz um tempinho que não escrevo sobre cinema por aqui, né? Então, pra não perder a oportunidade, já que vi e revi umas coisinhas neste feriado, aí seguem umas poucas palavras sobre algumas das obras que entrei em contato novamente nos últimos dias!

SUPERMAN II (Richard Lester, 1980)

Rever a segunda aventura do Homem de Aço depois de tantos anos e, principalmente, após este boom que temos visto do gênero na atualidade foi bem interessante. O filme, dirigido por Richard Lester e roteirizado a partir de uma ideia de Mario Puzo (ele mesmo, do Poderoso Chefão, que também havia trabalhado na primeira aventura do Superman), tem um ritmo muito mais elipsado e menos agitado do que os atuais filmes de super-heróis. Os momentos cômicos do longa dão o tom do filme, que é conduzido de maneira quase que pueril – sem deixar de levantar algumas questões pertinentes ao personagem, como seu amor por Lois Lane e sua crença na humanidade. As cenas de ação, vale dizer, eram ótimas à época e, por conta da evolução dos efeitos especiais, parecem bem precárias hoje. No entanto, há ótimos momentos no embate entre o Super e o trio de condenados à Zona Fantasma, comandado por um canastrão Terrence Stamp no papel de General Zod. Sem dúvidas, Superman II é um ótimo divertimento descompromissado, e com um Christopher Reeve inspirado no papel de Superman/ Clark Kent.

Super 8 (J.J. Abrams, 2011)

Resumidamente, não foi à toa que Spielberg foi produtor e colocou tanta fé neste projeto. O filme é uma ótima homenagem e, de certa forma, atualização deste gênero de aventura fantasiosa que o próprio Steven ajudou a consolidar nos anos 80. A caracterização é ótima e o elenco infantil rouba a cena em Super 8. Sem dúvidas, o roteiro, escrito pelo próprio J.J. Abrams, tem bastante profundidade quanto às relações entre os personagens, sem deixar de lado a ação, o mistério e tensão inerentes a uma boa história de terror/aliens. Os efeitos especiais estão ótimos, e toda a relação do longa com a era das filmagens caseiras em super 8 é linda de se ver. Pra quem ainda não conferiu, a dica é ver em uma TV com boa imagem e som, porque é cinemão de primeira linha!

A Lula e a Baleia (Noah Baumbach, 2005)

Noah Baumbach surgiu aos olhos do mundo a partir de sua parceria com Wes Anderson em “A Vida Marinha com Steve Zissou”. Ao lado de Anderson, Noah é, definitivamente, um dos roteiristas/ diretores mais proeminentes deste cinema indie  hollywoodiano, que soa mais intimista do que realmente o é. Não que suas obras não sejam boas, muito pelo contrário: Baumbach tem uma sensibilidade única para retratar relações e personagens marcados por dramas e tragédias pessoais. Em “A Lula e a Baleia”, o diretor, que também escreveu o longa, conta com um elenco afiadíssimo – Jeff Daniels e Laura Linney são os ápices, mas ainda temos Jesse Eisenberg e Owen Kline fechando a problemática família Berkman – e um roteiro muito sensível. Com seu estilo “câmera-na-mão”, Baumbach consegue contar uma história poderosa e íntima, com personagens que transitam entre os estereótipos e as unicidades, criando, sem sombra de dúvidas, conexões singulares com o espectador. Para quem conhece pessoas/ amigos/ parentes e afins que são tipicamente “superiores”, se acham intelectualmente elevados em relação ao resto do mundo, bem, vale ainda mais a pena. Filme excelente! PS: A trilha sonora, e a relação dos personagens com a música “Hey You”, do Pink Floyd, é genial.

Alta Fidelidade (Stephen Frears, 2000)

A adaptação do livro de Nick Hronbey feita por Stephen Frears é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores panoramas sobre relacionamentos feitos na década passada. Com um Jack Black hilário, Tim Robbins caricaturizado, uma bela/ frágil/ imponente Iben Hjelje (como a infame e amada Laura), participações especialíssimas de Catherine Zeta-Jones e Bruce Springsteen e, claro, um inspiradíssimo John Cusack, o filme alia música e drama de forma sensacional. Repleto de diálogos afiados e recheados com referências ao mundo da música pop/ rock contemporânea, Alta Fidelidade acerta a mão na dosagem entre o drama, os diálogos diretos do personagem de Cusack com o espectador e as partes dramáticas. Com uma baita trilha sonora, é um filme obrigatório, sem dúvidas!





A Conversação

1 02 2011

Logo após o fenômeno Poderoso Chefão, em 1972, os novos diretores que começavam a tomar conta de Hollywood se tornaram ainda mais fortes, e Francis Ford Coppola era provavelmente o mais poderoso dentre todos. Afinal, depois de render milhões aos cofres da Paramount com a primeira parte da saga do clã Corleone, Coppola tinha todo o crédito e poder para fazer sua American Zoetrope o lar dos diretores-autores da Nova Hollywood, começando por si mesmo. Então, mesmo que relutantemente, Francis filma O Poderoso Chefão: Parte 2 para obter recursos para realizar um velho sonho: fazer A Conversação, de 1974.

O filme mostra a história do especialista em espionagem Harry Caul [Gene Hackman, assombroso], que após realizar um complexo trabalho de escuta de um casal, começa a se indagar os verdadeiros objetivos desta escuta. A partir daí, Caul se vê perseguido por todos ao seu redor: desde seus empregadores [Harrison Ford e Robert Duvall, em uma rápida participação] até por seu companheiro de trabalho mais fiel [John Cazale]. Ao fim, Harry começa a questionar sua confiança no mundo como um todo, enquanto deve decidir o que fazer com as gravações.

A lenda conta que Coppola já tinha a ideia embrionária de A Conversação pronta em 1966, e estava aguardando o momento mais propício para filmá-lo. O filme é, com certeza, um dos melhores da longa carreira do cineasta, que foi responsável pela direção, produção e roteirização; toda a trama se relaciona intimamente com o panorama político pelo qual os Estados Unidos passavam à época – o caso Watergate, mais especificamente. Então, Coppola monta este complexo personagem que é Harry Caul: um dos melhores do ramo de espionagem, ele mostra pouca confiança no mundo, tendo enormes dificuldades em se abrir, ou contar casos do passado. Além disso, há razções mais implícitas nas práticas de Harry, que vamos descobrindo apenas ao longo do filme.

Claro que os méritos não são apenas do roteiro; Francis realiza cenas maravilhosas, que transmitem toda a incerteza e paranoia do personagem de Hackman, e como a qualquer momento alguém pode traí-lo. Coppola constantemente gosta de antecipar os movimentos das personagens, o que proporciona cenas marcantes – como as sequências nas quais Harry toca saxofone em seu apartamento, a festa em sua oficina e a parte final do longa. Além disso, a capacidade do elenco corrobora com a qualidade do filme, com grandes atuações de Hackman, Ford, Cazale e outros.

A Conversação é um thriller psicológico de primeira linha, e não à toa é o filme favorito de Francis Ford Coppola; com uma trama envolvente, um constante clima de tensão, grandes atuações e cenas belíssimas, o filme é um dos melhores daquela geração Nova Hollywood. Além disso, também se percebe a insegurança e desconfiança política dos Estados Unidos à época, o que torna o filme ainda mais interessante. No fim das contas, Coppola realizou, com certeza, um dos melhores filmes da década.

“A Conversação” – Excelente





Gene Hackman

30 01 2011

Feliz 81 anos; obrigado por tudo.








%d bloggers like this: