De um tempo onde as aberturas eram geniais

30 10 2012

La Resa Dei Conti, 1966.





I Giorni Dell’ira (1967)

30 01 2012

Estou até enferrujado pra escrever sobre western spaghetti, amigos, mas não pensem que os deixei de lado – ouviram, Pedro Pereira e Emanuel Neto? Pois bem, pude ver I Giorni Dell’ira, de 1967, dirigido por Tonino Valerii – que, antes, havia trabalhado como diretor de segunda unidade para ninguém menos que o mestre Sergio Leone em Por Um Punhado de Dólares e Por Uns Dólares a Mais. Valerii ainda trabalharia novamente com Leone em Meu Nome É Ninguém, de 1973 – o IMDB aponta Leone como diretor (não-creditado) de segunda unidade no filme, mas isso é conversa proutro dia. Pois bem, Valerii realiza um ótimo spaghetti, munido por um elenco de peso encabeçado pela dupla Giuliano Gemma e Lee Van Cleef, que desempenham os papéis de Scott Mary e Frank Talby, respectivamente. Sem muitas “revoluções”, vemos uma trama simples que trabalha a relação mentor-aprendiz entre Cleef e Gemma, e também vingança contra uma série de personagens “poderosos” (banqueiros, juízes, xerifes, etc.). Com um ritmo bem conduzido, bastante ação, alguns duelos memoráveis – como a sequência a cavalo e a parte final – e uma inesquecível trilha sonora feita por Riz Ortolani, I Giorni Dell’ira com certeza merece o status de clássico do gênero!

I Giorni Dell’ira – Muito Bom





High Noon (1952)

12 08 2011

Quando tudo que nos cerca está bem, quando não há ameaça alguma que nos rodeie, a vida é linda. Temos bons amigos, companheiros fiéis e um mundo repleto de possibilidades. Mas nas adversidades, ah, o panorama altera-se brutalmente. E o que resta a nós, meros peões subjugados pela imprevisibilidade do destino, senão lutar de acordo com nossas ideologias? Em tempos de necessidade nunca se sabe do que um homem é capaz, não senhor. Tal qual um cão ferido e acuado, a ferocidade que a vida desprende para se manter pode surpreender os agressores. E nestes tempos há a provação final, quando devemos aceitar nossos fardos. Amy acabara de se casar, Kane era um homem tão bom, justo, protetor. Mas há certas coisas que apenas um homem pode lidar, e mesmo sob condições quase impossíveis de sucesso, há certas viagens nas quais devemos embarcar. Por que não fugir? “Deixe o passado para trás!”, suplica Amy. Há tantas amarras, não se pode matar um homem, a religião não me deixa, isso é errado. No entanto, meus caros, quando todos viram as costas e o fim parece inevitável, a surpresa surge novamente. Se é pra morrer, oras, que morramos juntos; se é pra viver, que seja a seu lado.

“Matar ou Morrer” (High Noon) – Excelente





The Good, The Bad and The Ugly

28 02 2011

Antes de começar qualquer coisa, já peço desculpas antecipadas por qualquer exagero aqui. Falo isso porque revi pela enésima vez o maior clássico de Leone (pra mim): Três Homens em Conflito, de 1966. Mesmo com essa tradução maledeta para o português – o título original é o clássico The Good, The Bad and The Ugly -, o filme é o maior ícone do western spaghetti, e uma aula de cinema por parte de Leone.

A trama mostra a disputa entre três pistoleiros por uma fortuna em ouro enterrada em um longínquo cemitério. Blondie [Clint Eastwood, em sua terceira parceria com o italiano], Angel Eyes [Lee Van Cleef, reprisando a parceria de Por Uns Dólares a Mais, e sacramentando sua carreira no gênero] e Tuco [Eli Wallach, brilhante] atravessam boa parte do território americano, em meio à Guerra Civil, se unindo e traindo em busca dos US$250 mil.

Com uma premissa relativamente descompromissada, Sergio Leone e Luciano Vicenzoni trabalham de uma maneira muito interessante no roteiro. Repleto de frases de efeito e situações memoráveis, Três Homens em Conflito fascina pela dubiedade de seus personagens principais. Em seus dois spaghettis anteriores, o jogo duplo de Clint Eastwood sempre se direcionava a uma gangue em particular (ou clã, como visto em Por Um Punhado de Dólares); desta vez, há traições, reviravoltas e blefes de todos os lados – e apenas Lee Van Cleef pode se enquadrar como “mal” [não de um modo maniqueísta como nos westerns, lembremos].

No filme, Leone mostra o que suas características técnicas de filmagem poderiam fazer com devido investimento – o filme foi uma superprodução na época, custando mais de US$1,5 milhão; a grandiosidade dos sets enriquece ainda mais o filme, e Leone mostra completo domínio de seus recursos estilísticos, como os close-ups e as grandes tomadas, por exemplo. Além disso, Leone ainda consegue dar seu pitaco sobre a guerra, simbolizada na sequência da explosão da ponte – com a célebre frase do coronel: “Whoever has the most liquor to get the soldiers drunk and send them to be slaughtered… he’s the winner“.

If you have to shoot, shoot, don't talk.

Tudo que envolve o filme o torna inesquecível. A trilha sonora de Morricone – contendo suas melodias mais famosas, provavelmente -, a ousadia de Leone – com sets grandiosos e a montagem final com mais de 2h30 de duração -, a expressividade e atuação dos atores principais, e frases célebres. Um verdadeiro épico, com sequências memoráveis, como Tuco e Blondie no deserto, a prisão Yankee e, claro, o clímax mais bem executado e planejado do cinema, com o “duelo mexicano” ao fim do filme. Com certeza Três Homens em Conflito é o maior spaghetti da história.

“Três Homens em Conflito” – Excelente





Sabata

13 02 2011

A figura do forasteiro que chega para mudar as relações de força em determinada cidade é uma das mais recorrentes no western spaghetti. Como um dos ícones deste tipo de personagem, é impossível não nos recordarmos de Sabata, de 1969. Com um Lee Van Cleef em uma de suas atuações mas rememoradas e com direção de Gianfranco Parolini, o filme é um prato cheio para s fãs do spaghetti, com humor, tensão e ação na medida certa. A trama é repleta de reviravoltas e personagens cativantes, como os companheiros de Sabata – Carrincha [Ignazio Spalla] e Alley Cat [Aldo Canti] -, o bizarro vilão Stengel [Franco Ressel] e o enigmático Banjo [William Berger] – todos em busca de uma fortuna relacionada a um roubou de US$100 mil na cidade de Daugherty. Parolini mostra boas sacadas ao longo da obra, reforçando a imagem de Sabata como um pistoleiro inteligente e rápido no gatilho (com destaque para suas armas engenhosas, como o revólver que dispara pela coronha), e mostrando criatividade nos personagens coadjuvantes – o especialista em facas Carrincha, o acrobata Alley Cat, e Banjo, com sua Winchester disfarçada de instrumento musical. Com uma dose cavalar de ação e boas sequências de tiroteio – como a chegada de Sabata e o ataque à mansão – e uma grande trilha sonora – composta por Marcello Giombini -, Sabata é diversão garantida.

“Sabata” – Muito Bom





“Se é verdade ou se é mentira, certo muito verdadeiro”

10 10 2010

De vez em quando fico me perguntando: quem era realmente culpado naqueles cartazes de “procura-se” no Velho Oeste? O conceito de verdade e mentira em um ambiente por vezes inóspito como um pequeno vilarejo ou um deserto deveria ser bastante maleável. Tendo isso em vista, um dos melhores spaghetti makers dos anos 60, Sergio Sollima, filma aquele que, por muitos, é considerado seu melhor filme: O Dia da Desforra, de 1967.

Na trama, John Corbett [o sempre marcante Lee Van Cleef] é uma espécie de caçador de recompensas com um “apurado” senso de justiça. Ele está concorrendo por uma vaga ao senado, e, para tal, precisaria de um grande auxílio financeiro para a campanha. Então, surge Brokston [o competente Walter Barnes], que propõe o financiamento necessário em troca de um favor: Corbett deve caçar e prender o mexicano Cuchillo Sanchez [o maravilhoso Tomas Millian], que teria estuprado e esfaqueado uma menina de apenas 13 anos. Porém a missão não é das mais fáceis, graças às habilidades de Cuchillo – o bandido mais esguio da história do spaghetti western, provavelmente -, e verdade e mentira começam a confundir nesta intensa perseguição.

Em primeiro lugar, não tem como não destacar as atuações assombrosas de Lee Van Cleef e, principalmente, Tomas Millian. A química entre o “caçador-perspicaz-que-acredita-que-deve-fazer-o-correto” e o “mexicano-esguio-sedutor-e-letal-com-sua-faca” é impressionante desde a primeira cena. A perspicácia e ira que Van Cleef mostra a cada escapada de Millian são marcantes, tal como o jeitinho malandro e espertalhão de Cuchillo – o mexicano mais esguio do velho oeste, com certeza!

 

"You'll never catch me, gringo!"

 

Não tem como falar nesta obra-prima sem enaltecer o trabalho de Sollima. É impressionante o modo como ele constrói a narrativa, fazendo o espectador se indagar a cada vez que Cuchillo escapa, e como nem tudo é preto-no-branco no velho oeste dos spaghettis. Há várias cenas maravilhosas neste sentido, como a fuga do acampamento Amish ou a sequência da cadeia. Além disso, os clímax que Sollima cria durante o filme são memoráveis, como a sequência final – com a trilha sonora sempre marcante de Ennio Morricone.

Morricone que é o responsável por toda a trilha sonora do filme, incluindo a melodia tema (daquelas marcantes, que você ouve e fica apenas impressionado) e uma releitura de Pour Elise, composta por Beethoven – valeu pela dica, Osvaldo! Vale destacar que, no filme, desde a sequência com a música tema até a entrada de Pour Elise, há um dos melhores e mais inusitados duelos do spaghetti: um revólver contra uma faca. Genial!

O Dia da Desforra é um dos filmes mais emblemáticos do spaghetti western. O jogo de gato-e-rato entre Colbert e Cuchillo representa muito mais do que uma simples caçada; os duelos, conversas e perseguições de Colbert são muito mais do que cenas de ação bem filmadas, porque também representam severas críticas às representações sociais do velho oeste, e até dos tempos atuais – onde as aparências continuam condenando qualquer um que não se encaixe nos padrões.

“O Dia da Desforra” – Excelente





Per qualche dollaro in più

3 10 2010

Em 1964, o trio Leone-Morricone-Eastwood acertou o primeiro tiro da execução final da imagem do grande herói americano, o cowboy íntegro que serve como modelo de honra e atitude. Com o sucesso de Por Um Punhado de Dólares, Leone consegue um orçamento um pouco maior para filmar seu novo faroeste: “Per qualche dollaro in più“, ou Por Uns Dólares a Mais, de 1965. Ao lado de Clint e Morricone novamente, Leone consegue uma ótima adição para a obra, ao contratar o norte-americano Lee Van Cleef para o papel de Douglas Mortimer, um dos três personagens principais do filme. A obra seria o ensaio final antes do maior feito de Leone (na minha opinião, claro), o histórico Três Homens em Conflito – ainda falarei sobre esta obra-prima por aqui, fiquem tranquilos. Por Uns Dólares a Mais é um dos grandes western spaghetti de todos os tempos, com atuações impecáveis e um refinamento de Leone em relação ao seu filme predecessor.

Por Uns Dólares a Mais conta uma grande história de caça e vingança, encabeçada pelos caçadores de recompensa Monco [Clint Eastwood] e Douglas Mortimer [Lee Van Cleef], além do bandido El Indio [Gian Maria Volonté, outro ícone do spaghetti que repete a parceria com Leone, após Por Um Punhado de Dólares]. Monco e Mortimer empreendem sua caçada a Indio e seu bando; porém, quando percebem que seus objetivos são os mesmos, se unem para pegar o bandido, custe o que custar.

Com uma trama bem simples, repleta de reviravoltas e tiroteios, Leone tem em mãos o cenário perfeito para aprimorar suas técnicas de filmagem, seus close-ups inusitados, seu silêncios sufocantes, e principalmente a constante tensão entre os personagens principais. Seguindo um teor muito similar ao de Por Um Punhado de Dólares, Mortimer e Monco brincam de gato e rato durante boa parte do filme, e há trapaças e jogo duplo de ambas partes. Vale citar que, inicialmente, Leone queria Henry Fonda para o papel de Mortimer, para assim criar uma relação similar a “pai-e-filho” entre o personagem e Monco. Porém, Leone ainda não era conhecido nos EUA, e acabou contratando Van Cleef – que se tornou um dos maiores ícones do gênero, com papéis memoráveis em vários outros filmes.

Por Uns Dólares a Mais serve como meio de aprimoramento para Leone. Repetindo aspectos bem recebidos pelo público do filme anterior, Leone refina ainda mais a tensão, os olhares e principalmente a expressividade de seus personagens. Além disso, Leone vai mostrando de forma cada vez mais nítida sua visão do Velho Oeste, bem distante daquela dos westerns clássicos. Monco é um caçador de recompensas sem escrúpulos; Mortimer, um coronel em busca de sua vingança pessoal, custe o que custar; por fim, Indio é um bandido cruel, que não perdoa nem seus próprios aliados. Em meio a um cenário hostil, o cowboy se transforma em uma imagem do egoísmo, daquele que fará de tudo para se dar bem no fim das contas. Não há espaço para honra, apenas para a ganância e a sede de sangue.

Retomando a relação entre Monco e Mortimer, são os dois personagens que guiam a trama. Embuídos em suas buscas pessoais, eles protagonizam sequências clássicas, como o duelo de chapéus ou o tiroteio final. Sobre o duelo de chapéus, vale destacar que muitos defendem que seja uma das sequências mais icônicas do gênero, por mostrar o duelo psicológico entre os dois personagens, que estão apenas testando seus limites e habilidades com um revólver.

Ainda há muito a se falar e se elogiar sobre Por Uns Dólares a Mais, mas me encerro por aqui. Há toda a evolução de Indio, seu vício com o ópio, o jogo duplo de Monco, a sequência inicial, a trilha sonora de Morricone e o fim do filme – um provável ensaio para The Good, The Bad and The Ugly -, que deixo por conta de vocês que vão comentar ou assistir ao filme. O que ressalto, no fim das contas, é que Leone consegue nos mostrar um pouco mais sobre suas ideias sobre o Velho Oeste, como aquilo era uma terra sem lei, onde seus atos e ações valem muito mais que meras palavras. Nos filmes de Leone nada é em vão, tudo possui seu significado, seu valor; até uma melodia pode significar muito mais do que você pode imaginar…

“Por Uns Dólares a Mais” – Excelente








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