De um tempo onde as aberturas eram geniais

30 10 2012

La Resa Dei Conti, 1966.





Corbucci e dois zapatas (quase) gêmeos

30 11 2011

Da trinca de Sergio’s do spaghetti western, Corbucci se destacou como aquele que incutia mais crítica e reflexão social em sua obra. Il Grande Silenzio, de 68, é exemplo cabal disso, com toda sua atmosfera bruta, realista e também pessimista. Mas deixemos Silenzio de lado, e vamos nos debruçar sobre dois zapata-westerns maravilhosos de Corbucci: Il Mercenario, de 1968, e Vamos a Matar, Compañeros, de 1970. O elemento em comum das duas obras, a um primeiro olhar, é Franco Nero no papel de um mercenário estrangeiro em solo mexicano; no entanto, as obras são quase que gêmeas, e complementares em outros aspectos.

Em ambas as histórias mostra-se a ascensão de um “peão”, um “zé-ninguém” que acaba sendo elevado pelas circunstâncias ao cunho de líder revolucionário: em Mercenario temos Paco Ramón [Tony Musante], e em Compañeros temos El Vasco [Tomas Millian]. O Mexico do fim do século XIX/ meados do século XX é o contexto no qual os dois filmes se situam, e, acima de tudo, Corbucci quer nos levar a uma reflexão do que envolve a revolução popular. Quem são estes mártires? Quem os influencia? Quais interesses estas pessoas têm? É tudo pelo bem do povo?

Nero desempenha, em ambos os casos, o papel de “advogado do diabo”, sendo o mercenário/ mercador de armas que fará tudo em prol da revolução, contanto que seja pago adiantadamente. Corbucci usa este simbolismo escrachado da participação das “forças estrangeiras” de dois modos: em um, ao final, o estrangeiro adere às fileiras revolucionárias, de coração – vide a clássica cena em que Nero brada: “Compañeros, vamos a matar!”. Do outro lado, o “Polaco” se distancia e, mesmo ajudando a revolução, mostra que sem dinheiro não há briga a se comprar.

Há semelhanças e diferenças pontuais entre os revolucionários das obras: El Vasco é proletário tal qual Paco, mas desempenha por mais tempo o papel de fantoche. Usado pelas forças rebeldes, Vasco aceita tudo por conta de um novo status quo, onde ele não seria mais outro desconhecido na multidão. Paco, pelo outro lado, faz conscientemente sua revolução mais por si que pelo povo. “Não morrerei nestas minas como meu pai e meus irmãos, vou sair daqui”, pontua. No entanto, ao fim ambos realizam a verdadeira essência da luta contra os poderosos, e Corbucci reafirma sua veia esquerdista.

Claro, ainda há outros pontos congruentes entre Mercenario e Compañeros, como os papéis de Jack Palance, mercenário que caminha junto aos poderosos apenas para nutrir sua vingança pessoal, e as trilhas magistrais da dupla Ennio Morricone/Bruno Nicolai – que embalam o duelo inesquecível na arena de tourada em Mercenario e a retomada às armas ao fim de Compañeros.

No geral, acredito que mesmo sendo incrivelmente similares e fantásticos, os dois filmes mostram pequenas e importantes diferenças de revoluções populares: o papel dos estrangeiros, alheios às agruras do povo, que são por muitas vezes apenas interesseiros num cenário favorável; mas ele também destaca que estes “forasteiros” podem mudar de visão e aderir à causa revolucionária.

Numa visão mais ampla, Corbucci nos mostra as seduções e interesses que envolvem lutas tão brutas e importantes, e reafirma sua “esperança” no povo, que pode sim se conscientizar e pegar em armas por mudanças maiores. Paco e Vasco são extremamente simbólicos neste sentido, sendo personagens que tomam consciência de suas importâncias para melhorar as coisas. E, de quebra, o diretor italiano nos brinda com duas obras-primas, engajadas e bem conduzidas, com ação, humor, atuações marcantes e, acima de tudo, crítica social.

Vamos a Matar, Compañeros” e “Il Mercenario” – Excelentes





Faccia a Faccia

8 05 2011

Sergio Sollima era um gênio. Em três anos consecutivos, o italiano – que formou a trinca de ouro dos “Sergio’s” junto com Leone e Corbucci – realizou três das obras mais importantes do western spaghetti: O Dia da Desforra, em 1966; Quando os Brutos se Defrontam (Faccia a Faccia), de 1967 e Corri Uomo Corri, de 1968. Já falamos sobre La Resa Dei Conti por aqui, e é hora de falar sobre Faccia a Faccia, outra obra-prima de Sollima. Novamente com crítica social afiada, atuações soberbas e sequências antológicas, o filme é um clássico instantâneo.

Faccia a Faccia trabalha com temas universais: a compaixão, a justiça, a ira, o poder e a revolução. Sollima transita por esses complexos temas ao narrar a trajetória do professor Brad Fletcher [Gian Maria Volonté, num dos melhores papéis do gênero], que leciona no Norte abolicionista no pré-Guerra Civil americana. Enfermo, ele precisa ir ao Texas para descansar e tentar melhorar. Lá, acaba ajudando um o famoso ladrão Beauregard Bennet [Tomas Millian] a escapar e, fascinado pelas diferenças (“Beau” é um homem moldado pela dureza do Oeste americano), se junta a seu bando criminoso. A partir daí, Brad passa por uma completa transformação: o pacifista professor doente e debilitado se transforma em um revolucionário e violento ladrão. Neste processo, ainda se insere o agente infiltrado da Pinkerton Charley Siringo [William Berger], que tem que sabotar o bando dos “Brancos Selvagens” e descobrir onde fica a “Pedra de Fogo”, espécie de comunidade à parte da sociedade, protegida por Millian e seu bando.

É genial a transformação não apenas de Volonté, mas de Millian, que é um matador sem remorsos no início da película, e absorve parcela da sensibilidade, compaixão e razão de Fletcher ao início do filme. Sollima nos brinda com um filme que aborda a vasta gama de personalidades que uma mesma pessoa pode assumir, em dependência de diferentes casos. Fletcher é um homem pacífico no Norte abolicionista, onde as leis imperam; no Velho Oeste, onde cada homem faz sua própria lei, o personagem libera uma espécie de “monstro contido”.

Além disso, ainda há a crítica social, de poderosos que pagam um agente infiltrado para descobrir onde se encontra a Pedra de Fogo (um híbrido de favela e Canudos) e, ainda pior, pagam para um bando de mercenários massacrarem o vilarejo – US$100 por homem, US$50 por mulher e US$25 por velho ou criança mortos. A descrição do que é a Pedra de Fogo se encaixa em qualquer comunidade que não se encaixa no “sistema”, e é simplesmente perfeita:

“Toda ‘Pedra de Fogo’ é uma cidade de fantasmas:
Caçadores sem búfalos
Caubóis sem cavalos
Mineiros sem ouro
A ralé da velha e romântica fronteira que se recusa a aceitar a existência de trens, telégrafo, da realidade, em resumo.”

Faccia a Faccia é uma obra-prima, com certeza. Repleto de crítica social, ótimos personagens e um roteiro do caralho – não nos esquecendo, é claro, da trilha sonora magistral da dupla Ennio Morricone-Bruno Nicolai -, Sergio Sollima mantém o nível de O Dia da Desforra, seu filme anterior. Uma aula de cinema, um dos melhores western spaghetti da história.

“Quando os Brutos se Defrontam” – Excelente





“Se é verdade ou se é mentira, certo muito verdadeiro”

10 10 2010

De vez em quando fico me perguntando: quem era realmente culpado naqueles cartazes de “procura-se” no Velho Oeste? O conceito de verdade e mentira em um ambiente por vezes inóspito como um pequeno vilarejo ou um deserto deveria ser bastante maleável. Tendo isso em vista, um dos melhores spaghetti makers dos anos 60, Sergio Sollima, filma aquele que, por muitos, é considerado seu melhor filme: O Dia da Desforra, de 1967.

Na trama, John Corbett [o sempre marcante Lee Van Cleef] é uma espécie de caçador de recompensas com um “apurado” senso de justiça. Ele está concorrendo por uma vaga ao senado, e, para tal, precisaria de um grande auxílio financeiro para a campanha. Então, surge Brokston [o competente Walter Barnes], que propõe o financiamento necessário em troca de um favor: Corbett deve caçar e prender o mexicano Cuchillo Sanchez [o maravilhoso Tomas Millian], que teria estuprado e esfaqueado uma menina de apenas 13 anos. Porém a missão não é das mais fáceis, graças às habilidades de Cuchillo – o bandido mais esguio da história do spaghetti western, provavelmente -, e verdade e mentira começam a confundir nesta intensa perseguição.

Em primeiro lugar, não tem como não destacar as atuações assombrosas de Lee Van Cleef e, principalmente, Tomas Millian. A química entre o “caçador-perspicaz-que-acredita-que-deve-fazer-o-correto” e o “mexicano-esguio-sedutor-e-letal-com-sua-faca” é impressionante desde a primeira cena. A perspicácia e ira que Van Cleef mostra a cada escapada de Millian são marcantes, tal como o jeitinho malandro e espertalhão de Cuchillo – o mexicano mais esguio do velho oeste, com certeza!

 

"You'll never catch me, gringo!"

 

Não tem como falar nesta obra-prima sem enaltecer o trabalho de Sollima. É impressionante o modo como ele constrói a narrativa, fazendo o espectador se indagar a cada vez que Cuchillo escapa, e como nem tudo é preto-no-branco no velho oeste dos spaghettis. Há várias cenas maravilhosas neste sentido, como a fuga do acampamento Amish ou a sequência da cadeia. Além disso, os clímax que Sollima cria durante o filme são memoráveis, como a sequência final – com a trilha sonora sempre marcante de Ennio Morricone.

Morricone que é o responsável por toda a trilha sonora do filme, incluindo a melodia tema (daquelas marcantes, que você ouve e fica apenas impressionado) e uma releitura de Pour Elise, composta por Beethoven – valeu pela dica, Osvaldo! Vale destacar que, no filme, desde a sequência com a música tema até a entrada de Pour Elise, há um dos melhores e mais inusitados duelos do spaghetti: um revólver contra uma faca. Genial!

O Dia da Desforra é um dos filmes mais emblemáticos do spaghetti western. O jogo de gato-e-rato entre Colbert e Cuchillo representa muito mais do que uma simples caçada; os duelos, conversas e perseguições de Colbert são muito mais do que cenas de ação bem filmadas, porque também representam severas críticas às representações sociais do velho oeste, e até dos tempos atuais – onde as aparências continuam condenando qualquer um que não se encaixe nos padrões.

“O Dia da Desforra” – Excelente








%d bloggers like this: